terça-feira, 15 de julho de 2014

Ensinando uma criança bilíngue a escrever nas duas línguas.

Antes de começar, gostaria de agradecer ao Breno pelo comentário que gerou este post (e parabeniza-lo pela gravidez!).

Em seguida, aviso que os comentários a seguir são uma mistura de pesquisa com opinião. Meus filhos, devido às suas idades (1 ano / 2 anos) ainda não leem. Portanto, não tenho muita ‘prática’ no assunto. Rs

A primeira coisa a ser considerada acerca de crianças bilíngues é: “Qual o seu objetivo ao criar seu filho bilíngue?”. Às vezes, saber falar e entender o idioma já atinge o objetivo estabelecido. Em outros casos, a família espera uma criança alfabetizada nos dois idiomas.

A partir da resposta acima, os pais podem traçar metas e estratégias para alcança-las.

Vou responder os questionamentos dele aqui para esclarecer um a um.

Como vou fazer meu filho escrever em inglês?”

O processo de escrever sempre vem depois do processo de leitura. O primeiro passo, então, é familiarizá-lo com o idioma escrito por meio da leitura. Depois de familiarizado com a leitura (fase passiva), a criança está pronta para começar na escrita (fase ativa).

Como tudo no mundo do bilinguismo, não existe resposta pronta ou solução ideal para o caso. A partir de alguns relatos e textos, verifiquei que é mais comum ensinar a escrever em um idioma primeiro, para então iniciar o segundo. Algumas escolas bilíngues de São Paulo usam esse método, introduzindo a escrita na segunda língua um ano depois da primeira.

Isso se mostrou mais verdadeiro quando os alfabetos são os mesmo (inglês-português, por ex.) do que em casos de alfabetos distintos (japonês-português). Nos casos de alfabetos diferentes, o ensino simultâneo não parece confundir a criança.

Para muitas famílias ao redor do mundo, o que ocorre é o seguinte: a escola fica incumbida do ensino de um idioma, e a família se encarrega do outro.

Para muitas línguas, entidades governamentais e ONGs disponibilizam diversos materiais gratuitos (download) para ajudar os pais a alfabetizar seus filhos. [disponibilizei alguns links aqui]

A família pode escolher entre alguns métodos para garantir que seus filhos sejam alfabetizados nas duas línguas:

- Deixar a alfabetização nas duas línguas a cargo de uma escola bilíngue;
- Deixar a escola responsável por um idioma e ensinar o outro em casa; ou
- Deixar a escola responsável por um idioma e outra escola (sejam cursos de idioma ou escolas estrangeiras via Educação à Distância) encarregada do outro.

Pois sabemos que a relação fonema e letra é bem diferente entre português e inglês. Isso não irá causar estranheza?

A relação fonema letra entre essas duas línguas é bem diferente. O português é uma língua mais estruturada e mais ‘pura’, por se tratar de uma língua latina (originária do latim). Seus fonemas são mais rígidos, i.e., não é comum uma mesma vogal ou sílaba ser pronunciada de forma diferente em palavras diversas.

O inglês é uma língua anglo-saxã, cuja origem remonta aos antigos idiomas germânicos. A partir daí, com a invasão da Inglaterra e a proximidade com os demais países europeus, o idioma foi se alterando, absorvendo uma quantidade enorme de termos estrangeiros. Como resultado, existem palavras em inglês que mantém uma pronuncia germânica, enquanto outras possuem pronuncias latinas (dentre outras).

Para exemplificar:

Kindergarten [kin-der-gahr-tn, -dn] /ˈkɪnDescrição: http://static.sfdict.com/dictstatic/dictionary/graphics/luna/thinsp.pngdərˌgɑrDescrição: http://static.sfdict.com/dictstatic/dictionary/graphics/luna/thinsp.pngtn, -dn/ - pré-escola. Origem germânica. (Pronuncia: “KINDergarden”)
Kind [kahynd] /kaɪnd/ - Bom, gentil, amável. Origem inglês antigo. (Pronuncia: “KAIND”)

Ou ainda Utter [uht-er] e Utopia [yoo-toh-pee-uh]. O mesmo U tem duas pronuncias bem distintas.

Apesar dessa diferença de pronuncias no idioma inglês, os americanos conseguem ler e escrever tranquilamente. A diferença é que um brasileiro alfabetizado (conhecedor das regras gramaticais) consegue pronunciar qualquer palavra que ele encontre, mesmo que ele não saiba o significado da mesma e nunca a tenha visto antes. Um americano, por sua vez, não conseguirá pronunciar corretamente uma palavra que ele não saiba a origem, significado ou que ele não tenha ouvido antes. (Existe um teste curioso que evidencia isso nesse link).

Saber que os americanos conseguem ser alfabetizados, mesmo com essas divergências, é bem reconfortante para nós. =)

Devemos lembrar também que crianças são esponjas de conhecimento. Existem palavras que são similares, mas possuem pronuncias diversas entre português e inglês. Por exemplo: toilet/toalete, manual, federal, utopia etc.

Sabendo que existem divergências na língua falada, e que elas não confundem ou atrapalham o desenvolvimento das crianças bilíngues, podemos afirmar com certeza que divergências fonéticas não irão causar nenhum impacto negativo em nossos filhos.

Acredito que foi devido a essas diferenças que a escolha mais comum tem sido ensinar um idioma de cada vez.

 “Não irá prejudicar seu rendimento escolar na disciplina de português?”
                                 
Fique tranquilo. Estudos indicam que o desempenho acadêmico de crianças bilíngues é quase sempre superior ao de crianças monolíngues. Isso pode ter algumas explicações, mas a mais aceita é que crianças bilíngues possuem uma melhor compreensão da estrutura das línguas.

Conclusão

Diante de todo o exposto, o caminho a ser seguido por famílias bilíngues para conseguir fazer seus filhos lerem e escreverem é o mesmo de família monolíngues. A leitura deve ser incentivada, desde cedo.

[Não vejo óbice em continuar lendo livros com a criança em um idioma enquanto ela é alfabetizada no outro. Eu faço isso e recomendo, pois além de ser um tempo de qualidade com a criança, livros são ricos em vocabulário.]

Aqui cabe um breve aviso, na hora de incentivar seu filho a ler, escolha livros para a faixa etária dele, com vocabulário novo, mas dentro de sua capacidade de compreensão. Uma criança estimulada com livros desafiadores vai virar uma grande leitora, mas uma que tropece e tenha dificuldades em compreender aquilo que lê pode fugir dos livros. Devemos encorajar novas descobertas, desde que elas estejam dentro da capacidade da criança, senão corremos o risco de frustrá-la.

[Dica: livrarias grandes costumam ter livros em outros idiomas, mas para um acervo mais amplo, recomendo a loja TheBookDepository, eles possuem diversos títulos infantis e entregam com frete grátis no mundo inteiro.]

Um grande abraço,


quinta-feira, 12 de junho de 2014

Relato: A Longa Ausência

Antes de iniciar o relato, preciso contar um pouco do que aconteceu.

Nós morávamos em São Paulo-SP, onde eu atuava como consultor de Comunicação Corporativa (Branding) e de Comércio Internacional (COMEX) [Não errei a digitação, sei que as duas atividades não são muito correlatas, mas era o que eu fazia rs].

No início de 2014, comecei a atuar na Controladoria da Presidência da República (CGU) em Brasília-DF. Para efetuar tal mudança, precisei vir antes para Brasília para organizar a mudança, escolher moradia, etc. enquanto trabalhava.

Já sabíamos que a mudança só iria acontecer dois meses depois da minha partida.

Além de toda a ansiedade causada pela mudança (pois nunca havia morado em nenhum outro Estado), e de todo o peso no peito por ficar longe das crianças numa fase onde perder um mês significa perder diversos marcos de desenvolvimento, eventualmente nos demos conta de que, se mantivéssemos o sistema OPOL (eu inglês e a Patty português), eles ficariam dois meses sem contato com o inglês. 
[Mais sobre os métodos para se criar um filho bilíngue nesse post.] 

Por conta disso, começamos a pensar em formas de contornar a situação. As crianças já assistiam TV apenas em inglês, então não mudamos isso. Mas sabemos que o contato humano transmite vocabulário muito melhor do que um programa de TV. Isso ocorre, pois a criança atua de forma passiva com a televisão, não podendo interagir com a mesma. Ainda que alguns programas incentivem algum nível de interação (Mickey Mouse Club-House e Pocoyo, por exemplo), a criança não recebe uma reação genuína à sua ação. Quando ela interage com um adulto, ela recebe uma reação genuína e imediata para tudo que fala. Se ela fala algo incompreensível, recebe uma cara de interrogação, o que vai fazê-la reestruturar a frase, ou corrigir a pronuncia.

A saída que encontramos foi suspender temporariamente o OPOL. A Patty começou a fazer um sistema de divisão das línguas por horário. Do momento que eles acordavam, até depois do almoço, apenas o inglês era utilizado. Depois do almoço, até a hora de dormir, ela usava o português.

Evidentemente, eu ligava todos os dias de noite para falar com eles. Conseguimos, inclusive, fazer algumas vídeo-chamadas pra amenizar a saudade.

O resultado dessa ausência foi neutro (Linguisticamente falando, lógico, pois à parte emocional foi difícil. Até hoje ela ocasionalmente me pergunta se eu vou voltar ‘hoje’ quando saio pra trabalhar.).

Quando eu digo que foi neutro, é porque não verificamos nenhum atraso no vocabulário que ela já tinha. Não verificamos nenhuma dificuldade em compreender um ou outro idioma. E, principalmente, não houve nenhum tipo de antipatia por nenhuma das línguas.

Notamos, porém, que durante esse período (talvez devido ao contato mais frequente com a avó) ela passou a utilizar mais o português. Poucas semanas após meu retorno, a divisão voltou a ser equilibrada.

A situação foi facilitada por termos respeitado um sistema relativamente rígido ao longo da criação dela. Identificamos que o contato com o inglês era prejudicado pela localidade geográfica (Brasil), por isso, procuramos sempre oferecer outros tipos de exposição ao idioma, como livros, músicas e televisão.

Para a manutenção do segundo idioma na minha ausência, o fato de que minha esposa também é fluente em inglês, sem dúvida, auxiliou muito para essa conquista. Em situações similares, onde o pai viaja por muito tempo e a mãe não seja fluente naquele idioma (ou vice versa), é importantíssimo garantir um contato da criança com o idioma, seja com livros, filmes, músicas, parentes, playdates (grupos de brincadeira naquele idioma). Caso a mãe possua algum conhecimento no idioma, por mais básico que seja, sugiro que ela o utilize com a criança durante a ausência do pai (Por algumas horas por dia ou alguns dias na semana). Lembrando que “algum contato é melhor que nenhum contato”.


Um grande abraço!

PS.: Que belo começo de Copa do Mundo! 3x0! Vai Brasil!

PPS.: Essa foi depois do 7x1. ='/


sexta-feira, 6 de junho de 2014

É normal uma criança bilíngue conjugar verbos de forma errada ou misturada?

Pais de crianças bilíngues podem se preocupar quando seus filhos começam a conjugar verbos de forma errada ou até misturando regras gramaticais dos dois idiomas.

Mas confie em mim, isso é algo absolutamente normal e é um bom sinal!

Crianças monolíngues também conjugam verbos de forma incorreta, sejam elas monolíngues de Português, de Inglês ou qualquer outra língua. Gramática é algo complexo, que requer tempo para ser absorvido.

Crianças que já sabiam falar ‘went’ para fui, podem começar a falar ‘goed’ (go + ed). Isso é normal, e, como eu disse, é um bom sinal, pois mostra que a criança entendeu o conceito da terminação ‘ed’ e está começando a aplica-lo de forma experimental. Com o tempo, a criança entende que existem exceções para essa regra.

Em português as coisas são mais complicadas. Temos tantos tempos verbais e tantas pessoas para conjugar os verbos que as crianças demoram a acertar tudo. É normal crianças dizerem ‘eu comeu’, no lugar de ‘eu comi’. A Yuna outro dia parou de andar e me disse ‘eu pari’ no lugar de ‘eu parei’.  Eu fiquei super feliz com a capacidade dela de usar essa regra em um verbo novo, e morri de rir com o resultado. =D

Crianças bilíngues também costumam importar regras gramaticais de um idioma para o outro. Já presenciei isso diversas vezes em casa.

“Eu choosei esse.” [choosei = choose (escolher) + ei].

“Mommy already pented my hair.” [pented = pentear + ed].

Se o seu filho está conjugando errado, veja se crianças monolíngues da mesma idade também o fazem. Lembre-se que cada criança é única e que cada filho é um filho, por isso o desenvolvimento do primeiro pode ser mais rápido que o segundo filho, assim como o desenvolvimento de alguns coleguinhas pode ser mais rápido do que de outros. Então, o ideal é ver a média. Se seu filho estiver na média, ou próximo a ela, então está tudo bem.

Um apelo: não se preocupe com isso. Assim como a mistura de línguas, os erros de conjugação irão desaparecer antes que seu filho saia da infância e não comprometerão em nada o seu desenvolvimento. Erros de conjugação também não estão atrelados ao bilinguismo, e nada indica haver relação entre ambos.

Convido os leitores a compartilharem as conjugações ‘criadas’ por seus filhos aqui nos comentários!


Um grande abraço,


segunda-feira, 2 de junho de 2014

Breve Relato

Antes mesmo de qualquer coisa, peço desculpas aos meus leitores pela longa ausência.

A boa notícia é que agora as atualizações serão frequentes!

Vou fazer um breve relato de como tem sido nossa experiência:

Com a Yuna, nós estávamos começando no mundo prático do bilinguismo. Já com o William as coisas fluíram mais naturalmente.

A Yuna está com 2 anos e 9 meses, enquanto o Liam completou um ano. Devido à idade dele, não podemos esperar muita coisa ainda em se tratando de vocabulário, então focarei o post no desenvolvimento da Yuna.

Ela sempre aceitou muito bem o fato de termos dois idiomas falados em casa. Exatamente por termos começado cedo, essa é a única realidade que ela conhece. Durante o período de 1 ano até pouco depois de ela completar 2 anos, ela alternava entre os idiomas com qualquer pessoa. Isso gerou certa frustação nela quando pedia algo em inglês e a outra pessoa não a entendia. Nessas situações, eu sempre explicava o que ela havia dito para a outra pessoa, sem nunca corrigi-la.

Por exemplo, se ela falasse “Bobó, I want more juice please” eu dizia “Vovó, ela disse que quer mais suco, por favor”. Isso a mostrava que ela havia pedido certo, mas que a vovó não entendia aquele conjunto de palavras. Aos poucos, fomos notando que, apesar de ter mantido uma taxa de crescimento parecida no vocabulário de ambas as línguas, ela começou a usar, cada vez mais, o português com familiares e estranhos.

Hoje em dia, poucas vezes ela usa o idioma ‘errado’ para falar com alguém.

Notem que quando eu digo que ela disse em português, isso significa que a construção e a maioria das palavras eram em português. Eventualmente, ela ainda troca palavras entre os idiomas e conjuga verbos de forma misturada (‘choosei’ = choose [escolher] + ei [passado]).

Nessa fase, as construções começam a ficar cada vez mais complexas! E o curioso (e mais legal) é que algumas delas vêm ‘do nada’. Um belo dia, ela decide imitar uma frase que ouviu há quase um mês atrás e deixa todo mundo boquiaberto rsrs.

Outro dia, ela me oferece uma bolinha pula-pula e disse: “I cooked icecream for you. Liam can’t eat this one because he’s a little baby.

É nessa fase que o esforço do bilinguismo dá seus resultados mais evidentes (até agora). É nessa hora que temos que tomar cuidado para não minar o desenvolvimento de um idioma forçando a criança a usá-lo. Tratarei disso em post específico.


Um grande abraço!



quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Como e quando começar?

Uma das principais dúvidas sobre o assunto "criação bilíngue" é como fazer para começar, e qual a idade certa para isso.

Vamos começar pela mais fácil:

Quando começar?



A resposta padrão para essa pergunta é: Agora!
Se você já definiu o sistema que irá utilizar, pode começar desde já.
Mesmo que o seu filho ainda seja pequeno, não fale, ou nem tenha saído da barriga ainda, pode começar agora!



Eu comecei a usar o OPOL com a minha filha quando ela tinha 4 meses de vida. Simplesmente, da noite pro dia, passei a falar com ela em inglês. Eu não fiz isso antes pois estava buscando mais informações sobre o assunto, e quando estava com tudo definido, comecei!
Nosso segundo filho ainda está na barriga, e já usamos o sistema OPOL com ele.



Referências científicas:

Alguns estudos mostraram que a criança ao nascer já reconhece o idioma de sua mãe. Isso se deve ao fato de ela ter ouvido esse idioma durante todo o seu tempo no útero materno. O estudo foi assim: colocaram em recém nascidos chupetas que mediam a intensidade e a frequência com que o bebê chupava a chupeta. Houve uma diferença nítida entre um neném ouvindo o seu idioma materno e um ouvindo um novo idioma.
Um estudo similar mostrou que os nenéns também respondem a sons novos, como vogais que não existem na sua língua pátria.
Isso mostra que, desde o útero, os bebês já estão prestando atenção ao idioma que os rodeiam.



Minhas opiniões:

Ainda que os estudos mostrem isso, é difícil crer que falar com a criança em outro idioma desde antes do nascimento possa ter grandes diferenças com o resultado que seria obtido caso o mesmo fosse feito apenas quando a criança completasse um ano.


Um fato é que as crianças gostam de rotina. A previsibilidade da rotina é algo que ajuda muito no desenvolvimento das crianças. Por isso, quanto mais cedo você implementar o sistema novo, menor será a resistência que você irá encontrar.


Para exemplificar: uso somente o inglês com a minha filha de 18 meses. Outro dia, por curiosidade, decidi chamar ela em português. Para minha surpresa, ela virou a cara pra mim, e ficou emburrada! rs Ela só veio até mim quando a chamei em inglês.

Isso apenas ilustra o que eu disse. É muito mais fácil introduzir um sistema desses enquanto a criança ainda é um bebê. Mas nada impede que esse sistema seja introduzido posteriormente. Em fóruns internacionais, já li relatos de pais que conseguiram introduzir o OPOL em crianças maiores de 8 anos! Obviamente, eles encontraram uma resistência enorme por parte das crianças. Mas com insistência e força de vontade, eles conseguiram.



Um outro ponto positivo de começar cedo é que você se acostuma com a ideia de usar um outro idioma com seu filho mais cedo. E tem um tempo maior pra desenferrujar. rsrs
Mesmo para pessoas que não pensam estar prontas para o 'desafio', começar quando a criança ainda é um bebê só traz benefícios. Um bebê requer um vocabulário muito pequeno, quando comparado a um toddler ou a uma criança maiorzinha. Então, você terá todo o tempo do crescimento dele para turbinar seu segundo idioma.


Agora, vamos a segunda, e mais complicada, questão:

Como começar?



Na verdade, para começar basta definir o sistema que sua família irá utilizar. E isso é o mais complicado.
Você pode ler o que eu já escrevi sobre os métodos aqui.


Para definir qual método utilizar, você precisa se fazer alguns questionamentos:

1. Qual o grau de imersão que eu quero dar ao meu filho em X (idioma 1)? E em Y (idioma 2)?


Responder a essa questão é fundamental para que a família defina qual método irá seguir. Uma família em um país onde o idioma falado não é o dos pais tende a escolher o ML@H (Minority Language At Home). Ao passo que um casal onde apenas um dos pais não fala a língua local tem maior tendência a optar pelo OPOL (One Parent, One Language).


Como esse blog tem como público-alvo pais não-nativos que desejam ensinar esse segundo idioma aos filhos, o questionamento toma outra forma. Transformar uma casa com pai e mãe brasileiros em um local onde apenas um outro idioma é falado pode ser uma tarefa complicada.
Casais cujo idioma nativo é o mesmo irão falar entre si nesse idioma. Mudar isso de uma hora pra outra pode ser uma tarefa impossível.



A saída mais comum é a utilização do OPOL, onde cada pai ensinará uma língua às crianças. Porém, outras derivações são bem-vindas. Os pais podem falar ambos no segundo idioma com a criança, e no idioma nativo entre si. Esta é uma derivação do ML@H.

Tudo isso dependerá do grau de imersão que os pais desejam aos filhos.

2. Você(s) está(ão) preparado(s) para deixar que outras pessoas ensinem o seu idioma nativo aos seus filhos?


Caso a resposta de um dos pais seja negativa, este preferirá ser o responsável pela transmissão do português. Caso os pais não se incomodem em deixar esta tarefa para outras pessoas, então o ML@H passa a ser uma opção.


Para ajudar, vou compartilhar como foi nossa escolha.
Eu queria para meus filhos uma imersão razoável no inglês, mas sem negligenciar o português. Sempre quis ser chamado de 'papai', não de 'daddy'. Então, um dos fatores que mais pesou na nossa escolha foi o peso que queríamos para cada idioma. Nós queríamos o português mais presente, pelo menos no começo. E como nossa filha passa o dia com a mãe, ela ficou responsável pelo ensino do português, e eu do inglês.
Hoje em dia, ela está com 18 meses e nós não percebemos nenhum grau de diferença na compreensão dela entre o inglês e o português. Mas, ela mesmo sabendo que eu sou o 'daddy' dela, ela me chama de 'papai'. =)


Responder a essas duas questões pode ajudar na definição do sistema a ser utilizado.


Sei que eu insisto bastante nessa tecla, mas lembre-se: não existe método perfeito. O que existe é o método perfeito para cada família.
É o caso, por exemplo, de uma mãe solteira. Ela pode usar o sistema ML@H, ensinando ao seu filho sua segunda língua e deixando a cargo de parentes e da escola ensinar o português. Ela poderia também criar um sistema próprio de línguas em sua casa. Alternando ela mesma entre os idiomas. Essa alternância pode ser por dia, por dia da semana, ou até por horário.
Neste caso, a fase na qual a criança irá misturar os idiomas pode ser um pouco maior do que a maioria. Mas mesmo assim, ela passará logo, e a criança será proficiente em ambas as línguas.


A dica então é: assim que você decidir qual abordagem tomará, e qual sistema irá seguir, com eventuais ajustes para que ele se adeque à sua família, já pode começar a colocá-lo em prática.
=)

sábado, 22 de setembro de 2012

Como criar um filho bilíngue

Neste post vou falar sobre os principais métodos (sistemas) utilizados pelas famílias para criar filhos bilíngues.

Mas antes disso, cabe explicar o que são esses sistemas. Dentre as inúmeras formas de se criar um filho bilíngue, estão estes sistemas.
Além dos métodos adiante, os pais podem:
- Mandar a criança para intercâmbio;
- Colocar o filho em uma escola bilíngue;
- Contratar uma babá bilíngue; e por aí vai.

Estes sistemas são as "regras da família". Deve-se ter em mente que a maioria das publicações sobre o assunto se foca em casais multilíngues que criam filhos bilíngues. Como é o caso de uma brasileira casada com um japonês, ou de dois chineses morando no Brasil. Mas nada impede que pais não-nativos os apliquem com o mesmo grau de sucesso!
O que eu percebi é que estes sistemas não estão necessariamente ligados à situação do casal, e sim com a vontade dele!

Vou explicar cada um depois retomo o raciocínio. Os 2 sistemas mais utilizados são:

One Parent, One Language (OPOL)
Um pai, uma língua.

Neste sistema, cada pai se utiliza exclusivamente de um idioma para falar com a criança. Isso geralmente ocorre quando os pais não possuem a mesma língua nativa, e cada um decide falar com o(a) filho(a) em seu idioma nativo.
Com isso, a criança aprende o idioma nativo de cada um dos pais. E cada um deles se sente satisfeito em poder falar com seu filho em seu idioma nativo.
Algumas complicações podem aparecer caso um ou ambos dos pais não dominem bem o idioma do outro. Isso pode fazer com que este pai se sinta excluído de certas conversas ou atividades.

OPOL no Brasil!
Não existe nenhuma limitação que impeça a um casal não-nativo se utilize do sistema.
Esse é o sistema que nós utilizamos em casa, mesmo não sendo falantes nativos de inglês.
Funciona assim: eu sempre uso o inglês quando falo com a minha filha, e minha esposa sempre usa o português.
Decidimos que seria assim pois desejamos que o português dela seja um pouco mais forte que o inglês, pelo menos na primeira infância, uma vez que ela passa mais tempo com a mãe.
Esse método prega certa consistência. Ficar oscilando muito entre as línguas confunde a criança e pode ocasionar em uma mistura de idiomas.

Mas, morando no Brasil, como fazer isso? Simples. (nem tanto, mas tudo bem.) Sempre que eu falo COM a minha filha, eu uso o inglês. Em qualquer outra situação uso o português.
Em situações onde estão outras pessoas, eu julgo de acordo com a hora se é necessária uma tradução logo em seguida, ou não. Explico: as vezes, estamos com outras crianças da família ou com os avós da minha filha, e eu falo algo para ela. Nesse caso, cabe uma tradução, para que a família possa participar do momento.
Já em situações onde quem está perto são estranhos, ou em situações muito íntimas, uso o inglês sem traduzir depois. Se você vai usar este sistema, ou o próximo que eu explicarei, se prepare, pois muitos irão dizer que "é falta de educação falar em outra língua na frente dos outros". Alguns ainda completam: "pois eles não vão saber do que você está falando". A melhor resposta para isso: "Na verdade, falta de educação é achar que você tem o direito de ouvir a conversa dos outros!". Não sei de onde tiraram a conclusão que eles TÊM DIREITO (?!) a ouvir o que eu falo COM A MINHA FILHA. Mas, infelizmente, é isso que muitos pensam. E pior, pensam que podem/devem nos dar bronca por causa disso!!!
Apenas para exemplificar: imaginem uma família (casal + filho) vegetariana na praça de alimentação do shopping, quando pedem 3 saladas. Aí, o atendente sugere um bife para a criança, pois ela está em fase de crescimento. Educadamente, os pais explicam que eles são vegetarianos. O atendente, então, critica a decisão dos pais, e fala que isso é um absurdo!
Por incrível que parece, existe gente assim. E isso também ocorre com o bilinguismo.
Mas calma, você deve estar pensando que se começar a aplicar um desses sistemas o mundo vai se virar contra você. Não é nada disso. Estou avisando, que existem pessoas assim, mas são a exceção, e não a regra. Muitos admiram a iniciativa. Alguns jovens e crianças chegam a falar "poxa, queria que meus pais tivessem me criado assim". Alguns apenas estranham. E outros nem percebem o que está acontecendo.

Minority Language at Home (ML@H, MLaH)
Língua Minoritária em Casa

Nesse sistema, a língua minoritária será usada com exclusividade em casa. Cabe explicar o que seria a língua minoritária: ela é a língua não oficial da comunidade. Exemplo: a língua majoritária no Japão é o japonês. Logo, no Japão, o português é uma língua minoritária.
O termo "casa" também deve ser explicado. Ele não se refere ao domicílio, e sim à família. Então, a família, entre si, usará a língua minoritária.
Como exemplo podemos citar um casal brasileiro que vai morar no Japão e continua usando o português entre si. A comunidade (escola, amigos) irá ensinar o outro idioma à criança. Nesse caso, o japonês.
[Adicionado: Cabe ressaltar que, nesse caso, a criança pode sofrer um choque maior ao ser inserida em um ambiente onde o idioma falado não lhe é familiar. Crianças que desde cedo frequentam creches no outro idioma não devem estranhar, mas crianças maiores de dois anos podem se frustrar ao, de repente, não entender mais nada. Tratarei mais sobre o assunto em outro post.]

ML@H no Brasil!
Aqui o caso seria ambos os pais falarem com a criança em um outro idioma, que não o português.
Nesse caso, morando no Brasil, a comunidade (outros familiares, escola, amigos, etc.) vão ser responsáveis por ensinar o português à criança, enquanto os pais ensinam o idioma minoritário.
Nessa situação, o ideal seria que ambos os pais fossem fluentes no idioma a ser adotado, e que esse idioma minoritário fosse utilizado COM (relativa) EXCLUSIVIDADE em casa. Inclusive entre os pais.

Uma terceira opção

Uma terceira opção seria misturar os dois sistemas acima. Cada pai fala em um idioma minoritário com a criança, e a comunidade fica responsável por ensinar o idioma majoritário. Nesse caso, a criança crescerá falando 3 línguas (uma de cada pai, mais a da comunidade).

Isso é o básico de cada sistema. Com essas informações você já deve estar mais situado para ler outros textos e compreender melhor cada sistema, e, com isso, escolher aquele que é mais adequado a sua família.
No futuro tentarei me aprofundar mais em cada um deles e suas ramificações.
Mas perceba que os sistemas estão ligados com a vontade da família. Todos eles são "certos". O que deve ser observado é "qual é o certo para a sua família".
Alguns pais não se sentem a vontade falando em outro idioma com seus filhos, ou com sua esposa (ou marido).* Nesses casos, estes sistemas se tornam inviáveis. Afinal, não vale a pena comprometer seu relacionamento com seus filhos ou esposa por um sistema linguístico forçado! A escolha deve parecer a certa, caso contrário, ela não o é!
Outro aspecto importante: a escolha é do casal. Só! Familiares, filhos, vizinhos, amigos, cachorros, etc. NÃO PODEM OPINAR!

* confesso que foi estranho começar a falar com minha filha em inglês. Mas eu estava decidido! Foi estranho, mas era o que eu queria. 

Lembrem-se, qualquer coisa estamos a disposição para tirar qualquer dúvida que possa surgir, inclusive sobre algum tópico que ainda não foi objeto de um post.


segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Verdades e Mitos

A princípio eu tinha pensado em fazer uma única postagem cheia de verdades e mitos. Porém, achei mais fácil criar esse marcador e ir adicionando informação aos poucos (afinal, tenho uma bebê em casa).
Colocarei as frases que você irá ouvir por aí. E depois falarei se são verdade ou mito.

Essa história de duas línguas confunde a criança.

Mito. Estudos mostram que a criança têm capacidade para aprender até 4 línguas ao mesmo tempo a partir do nascimento. Isso, ao invés do que os "terroristas de plantão" dizem, deixa a criança com uma capacidade de raciocínio maior, além, óbvio, de proporcionar a ela uma vasta bagagem cultural.

Crianças que crescem em ambientes bilíngues demoram mais para falar.

Mito. Embora exista alguma parte dos autores sobre bilinguismo que afirmem isso, pesquisas estão mostrando que isso não é verdade. Falar, assim como sentar, engatinhar e andar são coisas únicas em  cada criança, que cada uma desenvolve ao seu tempo.
Se uma criança demora para falar em uma família monolíngue, ninguém culparia a opção de idioma dos pais. Porém, se a situação fosse a mesma, mas em uma família bilíngue (ou trilíngue), alguns iriam culpar o "excesso de línguas".
O que é verdade, é que em certo ponto a criança terá um vocabulário similar ao das outras crianças, porém dividido entre os idiomas. Isso pode dar a impressão que o vocabulário dela é menor. Mas isso logo passa. E quando passar, a criança terá aproximadamente o dobro de palavras em seu vocabulário do que uma criança monolíngue.

Duas línguas até vai, mas três já é demais.

Mito. Estudos mostram que uma criança pode aprender bem até 4 línguas simultaneamente. Esse limite de 4 línguas foi estabelecido com base em um estudo que mostra que as crianças precisam conviver aproximadamente 4 horas por dia com um idioma para assimilá-lo bem.
E como o dia tem 24 horas, sendo umas 10 ~ 12 delas destinadas ao sono (nosso e das crianças), não seria possível expor uma criança a mais que 4 línguas.

Crianças que crescem bilíngues misturam as línguas.

Verdade. Realmente existe uma fase que as crianças misturam os dois idiomas. Essa fase deve passar logo.
Isso pode ocorrer por dois motivos principais:
1) A criança só sabe falar determinadas coisas em uma das línguas;
2) Os pais misturam as línguas com a criança.
Na primeira situação, os pais devem ajudar a criança a ampliar seu vocabulário. A forma de fazer isso depende do método escolhido pela família. (falo mais sobre métodos em outro post).
Já na segunda situação, também depende do método escolhido pela família, mas saiba que eventualmente vai passar.

Quanto antes, melhor.

Verdade. Quanto mais cedo vocês começarem, melhor. Mas isso não significa que existe idade limite.

Existe hora certa de começar.

Agora eles já estão muito grandes para isso.

Mitos. A hora certa para começar é: AGORA!
Isso mesmo. Se você está lendo isso é porque deseja propiciar aos seus filhos uma educação bilíngue, certo? Então comece hoje!
Não importa se seu filho ainda nem saiu da sua barriga ou se ele já está com 8 anos. O que realmente muda nesses casos é que a criança de 8 anos pode oferecer mais resistência. Mas com paciência e persistência tudo dará certo.


Precisa esperar ela aprender uma língua para ensinar outra.


Mito. Até mesmo a alfabetização pode ser simultânea. Mesmo assim, diversos médicos afirmam que é melhor esperar.
Essa informação pareceria válida se viesse de um pediatra especializado em crianças bilíngues. Porém, a verdade é que pediatras especializados em crianças bilíngues são uma espécie em extinção! Ainda mais no Brasil!
Um pediatra "normal" não estudou nada sobre o assunto (bilinguismo), e suas opiniões valem tanto quanto as daquela tia palpiteira! Nada!
Mesmo professores e psicólogos não tem moral para falar sobre o assunto apenas por causa da faculdade que cursaram.
Este é um assunto muito peculiar, cercado de mitos e meias-verdades. Mitos estes que diversos profissionais repetem.
Eu sei que parece pedante dizer que médicos, professores e psicólogos não podem opinar sobre o assunto, mas eu posso. O que eu estou dizendo é que eu pesquisei muito sobre isso. Se o seu médico também possui respaldo científico, então ouça ele!
O que não pode é ouvir alguém com base no "achismo".

Apenas pais bilíngues podem criar filhos bilíngues.

Mito. Embora facilite as coisas, é perfeitamente possível pais monolíngues criarem filhos bilíngues. Para tal, será necessário escolher um método compatível com isso. (falo mais em outro post)

Existe apenas um método para criar um filho bilíngue.

Mito. Explicarei em outro post diversos métodos existentes. Os autores ainda são unânimes em afirmar que cada família funciona com um método.

Apenas pais que são falantes nativos do idioma podem criar filhos bilíngues. (Especialmente no método OPOL)

Mito. Existem diversos exemplos de pessoas que aprenderam uma língua como segunda língua e criam seus filhos no sistema OPOL. Aqui em casa é assim.

Bom, é isso. Viu quantos mitos. =)
Se você têm alguma dúvida, comente abaixo que eu farei o possível para respondê-la.


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...