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terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Construindo vocabulário para crianças bilíngues

Quem lê, decora.
Quem vê, aprende.
Quem faz, não esquece.

Isso é verdade para línguas também. Chegar para alguém com uma lista de vocabulário sobre determinado assunto e pedir pra pessoa ler e aprender é uma tarefa estafante, pois dificilmente dará frutos. Usar flashcards é uma ideia melhor, pois facilita o estabelecimento do signo, uma vez que o significante e o significado são dados.

Existe, contudo, uma forma ainda melhor de ensinar e a mais indicada para crianças: experiências.

Uma criança só terá em seu vocabulário termos que ela use ou saiba utilizar. Isso é verdade para adultos também. Homens não costumam saber muitos termos de maquiagem enquanto que mulheres costumam penar para distinguir ferramentas. Isso tudo considerando uma pessoa monolíngue em relação ao seu idioma nativo.

Cada realidade possui seu conjunto próprio de termos. Para médicos: suturar, incisão, BPM etc. Para advogados: prevaricar, intimar, autuar etc. Para mecânicos: carburador, cárter etc. Comunicadores: signo, significante, receptor etc. Contadores: livro-caixa, balancete, soma-zero etc. Pais: mijão, body, coeiro etc.

Perceba que esses termos só costumam ser usados (e compreendidos) nessa realidade. Sendo assim, não são todos que são familiarizados com os mesmos.

Da mesma forma, uma criança bilíngue só terá em seu vocabulário termos que façam parte de sua realidade. Vamos pensar em uma criança bilíngue que nunca brincou com giz fora da escola monolíngue. Nesse caso, é seguro crer que essa criança não conhecerá a palavra ‘chalk’ (giz).

Nesse sentido, é importante proporcionar novas experiências para as crianças em uma criação bilíngue.

Uma boa sugestão é pintar (um quarto, uma parede ou um desenho) com a ajuda dos filhos. Aqui, eles poderão aprender termos como: tinta, pincel, parede, pintar, cores, molhado, seco, por cima (como em pintar por cima), balde, escada.

Nesse final de semana, nós decidimos brincar de arte com eles. Pintamos com cola e glitter, desenhamos com tinta e brincamos com giz.
Curiosamente, o termo que mais marcou a Yuna foi ‘Art’. Ela não conhecia o termo em nenhuma das línguas e ficou super feliz falando que ‘estaba pazendo arte’.

Outras dicas do que fazer com seus filhos bilíngues para aumentar a exposição a um idioma:

- Brincadeiras com objetos novos (baralho, dados, bexiga, blocos);

- Cozinhar (nomeando os utensílios e ingredientes e deixando a criança manuseá-los) – aqui a criança aprende o nome dos instrumentos, dos alimentos e dos procedimentos como ferver, cozer, fritar, assar, descascar, picar, moer, fatiar etc.;

- Organizar a casa (nomeando as partes da casa, os instrumentos usados e deixando a criança ajudar) - palavras que a criança pode aprender: sala, cozinha, banheiro, quarto, sofá, cama, tapete, vassoura, pá de lixo, aspirador, pano, balde, chão etc.

- Plantar uma árvore/horta – terra, semente, broto, regador, pá, cavar, sol, chuva, vida, crescer, grama, minhoca etc.;

- Ir ao zoológico/parque/aquário - para aprender o nome dos animais.

Basicamente, precisamos responder a seguinte questão: “existe algo com o qual meu filho nunca teve contato? Se sim, como posso dar a ele essa experiência?”.

Convido os leitores a deixarem novas sugestões de atividades para ampliar vocabulário.


Um grande abraço,













terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Problemas com Pronúncias?

Pais de criança bilíngues precisam ter em mente duas coisas o tempo todo.
1. Seu filho é bilíngue.
2. Seu filho ainda tem (X) anos.

Pode parecer algo trivial, mas às vezes não é. Vou usar um exemplo para explicar as ponderações.

A Yuna está com 3 anos, e fala muito. E quando eu digo muito, é muito mesmo. Rs.

Quanto mais ela fala, mais conseguimos perceber alguns vícios de linguagem e alguns problemas de pronúncia. Ela costuma trocar o ‘f’ pelo ‘p’ e o ‘v’ pelo ‘b’. O resultado fica assim: “Eu tô peliz com bocê.” Ela costuma falar isso de vez em quando. Em outros casos, ela pergunta se estamos ‘pelizes’ com ela. Aqui, é uma forma de perguntar se ela está se comportando bem.

Eu, porém, percebi isso primeiro em inglês em frases como “ip Biam (William) hits me, I bill cry”. Por um momento, fiquei preocupado. Será que eu, como não-nativo, estava ensinando ela a falar errado? Será que ela não seria realmente bilíngue? Será que ela falaria errado pra sempre?

Esses questionamentos não duraram muito. Eu vi que isso estava acontecendo nas duas línguas. Eu me lembrei dos meus sobrinhos monolíngues. Um deles ficou um bom tempo falando “Ramos (vamos) pra casa” e “Carralo (cavalo)”. Hoje, ele fala muito bem.

Então, decidi ampliar meus conhecimentos e pesquisar sobre a evolução na pronuncia das vogais, consoantes e diferentes fonemas, em português e em inglês. O resultado foi o seguinte: existem alguns fonemas que são mais complexos, pois sua pronuncia requer movimentos mais finos. E, como em tudo mais, cada criança tem seu ritmo.

Para servir como guia para pais na mesma situação, segue uma breve lista:

Antes dos 4 anos, não se fala em “erro de pronuncia”.

Uma criança está dentro dos padrões se ela conseguir pronunciar bem as seguintes consoantes até os 4 anos: P, B, M, N (e W em inglês).

Até os 5 anos, ela deve conseguir usar as seguintes letras: m, p, b, g, t, d, n.
E, em inglês, acrescente: h, w, k, ng, y.

Apenas aos 6 anos, espera-se uma boa dicção das letras: f, v, ch.
Em inglês, ainda existem as combinações: th, sh, zh.

Por fim, apenas pode-se cogitar que algo esteja errado, caso a criança, depois dos 7 anos, não consiga pronunciar a lista acima, e diferenciar: s-z, r-rr.
E, em inglês, as terminações mudas th, ch, wh e o g curto.

As consoantes que estão fora dessa lista costumam não dar problemas e são aprendidas ainda cedo como d, c, l. Essas costumam aparecer na fase pré-verbal, onde o neném as repete infinitamente: da-dá, ca-cá, lá-lá-lá-lá-lá...

Essa comparação acima foi feita usando como base estudos de crianças monolíngues em português e em inglês. Isso significa que mesmo crianças americanas não terão uma pronuncia perfeita até os sete anos de idade.
Sendo assim, se o seu filho bilíngue ainda não tem a pronúncia perfeita e sem sotaque que os outros cobram de você, saiba que o motivo é a idade dele e não o bilinguismo. Se, por outro lado, ele está muito adiantado nessa lista, e consegue pronunciar o th e o f antes dos 5 anos, também não há razão para se preocupar (ou para taxa-lo de gênio – ainda que esse seja o instinto de todos os pais).

No final, a pronúncia e a dicção se desenvolvem na criança no tempo individual dela. Algumas crianças andam com 8 meses, outras com quase 2 anos. Algumas são desfraldadas com 1 ano, outras depois dos 5. E, da mesma forma, algumas crianças falam o v, f, th, ch com 2 anos e outras com 7.

O importante é respeitar o tempo do seu filho e não pressioná-lo. Nunca corrija os erros dele. Você pode, sim, mostrar a forma correta. Por exemplo:

“Olha, uma plor amarela!”

ERRADO: “Não, filho. Não é PLOR, o certo é FLOR.”
CERTO: “Isso mesmo, filho. Que FLOR linda!”

Perceba que o raciocínio é o mesmo do bilinguismo. Vamos ver em outra situação.

“Olha, mamãe, uma plower amarela.”

ERRADO 1: “Não, filho. FLOWER é em inglês. Comigo você precisa falar FLOR, em português.”
ERRADO 2: “Isso mesmo, filho. Que FLOWER linda!”

CERTO 1: “Isso mesmo, filho. Que FLOR linda!”
CERTO 2: “That’s right, my son. What a pretty FLOWER!”

Espero ter ajudado e aliviado algumas preocupações.

Um grande abraço,


quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Como escolher uma escola bilíngue?

O tema abordado não é simples. Apesar do título da postagem, o texto vai falar sobre como escolher uma escola, seja ela bilíngue ou não. Não pretendo esgotar o tema, e sim dar algumas linhas gerais.

Ao escolher uma escola, a família deve levar em conta alguns fatores:

1. Equipe: aqui, a verificação deve ir além de títulos e certificados, é interessante observar o comportamento da equipe com as crianças e o das crianças com a equipe. Crianças que nutrem carinho pelos professores são um ótimo indicativo.
2. Instalações: esse quesito diz respeito à segurança e ao conforto. Para crianças pequenas, verifique se as tomadas estão cobertas, se a escada é de fácil acesso, e se existem outros perigos para os pequenos. Para os maiores, salas de aulas e laboratórios são um bom local para começar. Aviso que os pequenos vão julgar a escola apenas pelo parquinho, enquanto os maiores o farão pela quadra de futebol.
3. Turmas: Verifique o número de alunos por turma. Isso é especialmente válido para crianças menores, pois um maior número de crianças significa menos atenção para seu filho e mais chance dele ficar constantemente doente.
4. Rotina: Verifique se a rotina da escola se adequa à sua (horários) e se você concorda com aquela rotina. Cuidado para não esgotar seu filho com uma rotina muito puxada.
5. Linha pedagógica: Crianças de 5 anos treinando para o vestibular ou intensivão bicho-grilo? Veja qual é a preocupação da escola em relação aos objetivos de ensino. Existem escolas mais focadas em preparar o aluno para o mercado de trabalho, enquanto outras o preparam para a vida. Idealmente, sugiro procurar uma que pense em ambos. (Lembrando que o que vale é a prática, pois o discurso costuma ser sempre parecido)
6. Custo: É importante que a escola caiba confortavelmente no orçamento familiar. Essa escolha, como todas que envolvem dinheiro, deve ser feita de forma responsável.
7. Localização: A localização da escola deve ser levada em conta, mas não acredito que deva ser o principal diferencial na hora de escolher.
8. Indicação/recomendação: Busque opiniões de quem já matriculou seus filhos nesta escola.

Mas como escolher a escola bilíngue para o seu filho?

Primeiro, vemos analisar as possibilidades:

1.       Escolas Bilíngues: Currículo dividido entre os idiomas. Ano letivo brasileiro.
Prós: dão à criança um bom panorama das duas culturas.
Contras: muitas escolas bilíngues possuem equipes fracas (cuidado com esse ponto).
Preço: $$$

2.       Escolas internacionais: Currículo similar ao do país de origem da escola. Ano letivo americano (início em agosto).
Prós: possuem boa infraestrutura e profissionais bem qualificados. Emitem diploma do país de origem (ou duplo).
Contras: Podem negligenciar a realidade brasileira (vestibular).
Preço: $$$$$

3.       Escolas tradicionais: Currículo brasileiro. Ano letivo brasileiro.
Prós: professores qualificados e boa infraestrutura. As melhores oferecem sistema High School (diploma duplo)
Contras: O inglês é objeto do ensino, não instrumento.
Preço: $ - $$$

4.       Escolas Onlines Internacionais: Currículo do país de origem. Ano letivo internacional.
Prós: professores qualificados. Diploma do país de origem.
Contras: Aulas apenas virtuais.
Preço: $$-$$$$

5.       Homeschooling: Prática não regulamentada no Brasil. Pode ser usada apenas de forma complementar.
Prós: o pai e/ou a mãe são os instrutores, isso reforça vínculos familiares.
Contras: Exige tempo e dedicação do aluno e dos pais.
Preço: Grátis - $
(Nota: apesar de não regulada, existem posições importantes defendendo esse direito. Por exemplo, a tese do Ministro do STJ. Disponível em http://bdjur.stj.jus.br/xmlui/bitstream/handle/2011/260/Aspectos_Constitucionais_e_Infraconstitucionais.pdf )

Aqui, vemos claramente um trade-off, uma troca. As escolas internacionais costumam ser grandes e com uma infraestrutura excelente, mas custam fortunas. Escolas bilíngues adicionam o inglês e cobram bastante por isso. Uma escola bilíngue com uma infraestrutura regular chega a cobrar R$ 1,5 mil por mês (idade – 4 anos). Pelo mesmo valor, os pais podem escolher praticamente qualquer escola tradicional.
Cabe aos pais ponderar o quanto de importância eles querem dar a cada idioma. Uma família que planeja mudar de país pode achar mais fácil escolher uma escola internacional. Uma família que pensa em permanecer no Brasil pode escolher uma escola tradicional.
Usar escolas online é uma boa opção para complementar os estudos da criança que cursa uma escola tradicional. O aluno faria meio período na escola tradicional e meio período cursando a escola virtual. Recomendo o site http://www.onlineschools.org para se informar sobre o assunto. Os custos variam de $ 2 a 12 mil dólares por ano (R$ 400 a 2 mil reais por mês).
Julgando esses fatores, aliados com os itens elencados acima, os pais podem chegar a uma decisão com uma certeza maior. Se a família não possui condições de colocar seus filhos em uma escola internacional, mas prezam mais pela infraestrutura e tradição do que para o segundo idioma, pode escolher com segurança uma escola tradicional. Se o aspecto linguístico é o principal a ser ponderado, talvez valha a pena visitar algumas escolas bilíngues.

Para ajudar os leitores, vou compartilhar nossa decisão.

Como criamos nossos filhos no sistema OPOL, eles já são bilíngues dentro de casa. Não fazemos questão de que seja a escola que os alfabetizem em inglês. Por conta disso, escolhemos uma escola tradicional com uma boa infraestrutura, relativamente próxima de nossa casa. Manteremos o inglês em casa, e iremos analisar a situação conforme eles forem crescendo.
Em nenhum dos estados que moramos (SP e DF), encontramos escolas bilíngues com boa infraestrutura (próximas de casa). No geral, são sobradinhos adaptados. Algumas (as mais caras) possuem uma área um pouco maior, mas ainda assim são pequenas para a quantidade de alunos.

Em relação à questão levantada (“Escolhendo a melhor escola bilíngue”), é importante:

1.       Ouvir a equipe usando o segundo idioma para ver o grau de proficiência na língua (certificados como TOEFL e Cambridge não substituem o olhar dos pais). Os pais poderão perceber se aquele profissional está confortável no idioma, isso é, se ele soa natural ao usá-lo.
2.       Tentar ouvir as crianças usando a segunda língua. Afinal, elas são a prova de sucesso ou insucesso da escola. O ideal seria andar pelos corredores da escola ouvindo diferentes crianças para evitar que a diretora, por coincidência, lhe apresente para a filha do cônsul americano. Obviamente, a ideia aqui não é inquerir os alunos (coisa que os incomodaria e que nenhum pai gostaria que fosse feita aos seus filhos na escola), e sim, ter uma abordagem de observador.
3.       Analisar a comunicação da escola. Escolas bilíngues costumam ter sites, folders, cartazes no idioma minoritário. Julgue-os para auferir a seriedade da escola. [Visitamos uma escola em São Paulo que tinha uma placa de Sleepy’s Room (quarto do Sleepy) ao invés de Sleeping Room (quarto de dormir)].
4.       Cuidado com mistura de línguas. Misturar duas línguas é uma técnica não indicada pelos linguistas. Infelizmente, muitas escolas fazem isso. Isso serve para dar aos pais a impressão de que a criança está ‘virando bilíngue’. Explico. Se todos os dias, a professora diz “é hora do snack” ou “quem quer um pouco de juice?”. Com o passar do tempo, a criança irá aprender essas duas palavras, e, dependendo da idade, irá usá-las com os adultos em casa. Porém, uma criança que fala “mãe, eu quero um juice” não é necessariamente bilíngue, ela pode conhecer apenas essa palavra em inglês da frase toda.

O acompanhamento deve seguir mesmo depois da escolha. Passados alguns meses, a criança, se não era bilíngue ao entrar na escola, já deve entender/falar algumas palavras. Cuidado para não tentar ‘exibir’ as novas habilidades linguísticas de seu filho, pois isso pode ter o efeito inverso. Ele pode ver o idioma minoritário como algo ‘diferente’, e crianças possuem uma vontade natural de pertencer/ser igual aos demais. Se a criança já era bilíngue, pouca ou nenhuma mudança deve ser observada em seu comportamento em casa. Lembrando que crianças bilíngues alternam entre os idiomas e que pode existir um idioma preferido de acordo com a idade e realidade da criança. Vou dar um exemplo: uma criança bilíngue que entre em uma escola onde apenas o inglês seja utilizado (pelos professores) ainda pode começar a falar mais o português pelo simples motivo de que as demais crianças da sala não eram bilíngues antes de entrar na escola, e, por isso, usam mais o português. Nesse caso, o desejo por pertencer e a convivência com os demais alunos podem levar a criança a usar mais o português.

Espero ter ajudado nessa hora tão difícil.

Um grande abraço!


terça-feira, 19 de agosto de 2014

Criar um filho bilíngue não é ensinar outra língua!

A afirmação do título pode parecer contraditória, mas permita-me explica-la.

Em diversas ocasiões, perguntaram-me como eu estava ‘ensinando’ inglês para meus filhos. Em muitos casos, a ideia de quem me perguntava isso era de que eu ensinava a ela da mesma forma que as escolas de inglês fazem: sentando-a em uma cadeira e começando a falar “em inglês, a cor vermelha se chama red. Red. Então, para falar maçã vermelha, falamos red apple”.

Essa é uma boa forma de ensinar um idioma, mas não funciona com crianças muito pequenas e não tem nada a ver com uma criação bilíngue.

Um filho bilíngue aprende as duas línguas da mesma forma. Isso significa que não se usa um idioma como instrumento para ensinar o outro. A criança está aprendendo a decifrar o mundo, e seu conhecimento ao nascer é [praticamente] o mesmo em qualquer língua (nulo).

Por isso, seu aprendizado da segunda língua deverá ocorrer de forma natural e interativa. A criança deve aprender experimentando, convivendo e interagindo com o idioma. Se a criança nunca viu um liquidificador, ela não lhe atribuiu nenhum nome ainda, em nenhuma língua. Ao ver um pela primeira vez, recebe a informação de que “that’s a blender”. Agora a criança já atribuiu um nome ao objeto (Blender).

Se uma semana depois, recebe a seguinte informação “isso é um liquidificador”, a criança vai entender que ‘liquidificador’ é outra forma de falar ‘blender’.

Em todos os idiomas que conheço, existem sinônimos. Palavras diferentes para significar a mesma coisa ou coisas muito parecidas. Temos diversos exemplos em português:

Montanha, morro, colina, monte. // Mar, oceano, pélago. // Carro, automóvel, veículo.

O mesmo ocorre em inglês:

Mountain, cliff, mount, hill. // Sea, ocean. // Car, automobile, vehicle.

Apesar de existirem leves diferenças entre o uso das palavras citadas, podemos considera-las como sinônimas. Ninguém deixará de ser compreendido se usar o termo oceano no lugar de mar. Diante disso, vemos que é natural às crianças (e aos adultos) atribuírem mais de um nome a um mesmo objeto.

Agora que já sabemos que não existe problema em saber dois nomes para o mesmo objeto, gostaria de fazer um alerta sobre a criação de uma criança bilíngue:

É normal que a criança bilíngue tenha um idioma dominante, que será aquele que ela falará mais. É normal, também, que o idioma dominante se altere com o tempo, ora um ora outro. É importante para os pais respeitar essa escolha, mas nunca abrir mão do idioma ‘secundário’. Em uma criação OPOL onde a mãe fica em casa, é normal que a criança desenvolva um vocabulário maior no idioma da mãe devido ao convívio. O pai, então, pode se deparar com situações onde a criança sabe a palavra apenas no idioma da mãe. Nessa situação, é importantíssimo que o pai não traduza para o idioma da mãe.

Vou dar um exemplo para explicar. Uma família OPOL onde o pai fala inglês e a mãe português (qualquer semelhança com a situação de quem vos escreve não é mera coincidência rs). Todos os dias, a mãe é a responsável pelo banho. Ela pede pra seu filho “entre na banheira, por favor”. O filho já sabe o que é a banheira.

Imaginem que a mãe peça para o pai dar o banho um dia, e ele prontamente o faz. Ele então pede ao filho “can you get in the bathtube, please?”. O filho não conhece a palavra bathtube, então o pai tem algumas possibilidades. Ele pode apontar e mostrar para o filho o que é bathtube (banheira). Ao ver seu pai apontando para a banheira, a criança irá entender que ambas as palavras se referem ao mesmo objeto.

Caso o pai tenha recebido outra tarefa, também relacionada à hora do banho, como comprar uma banheira maior. O pai, já na loja, fala para o filho que “we’re going to buy you a new and bigger bathtube”. Dependendo da idade, o filho vai perguntar para o pai “o que é isso?”. Crianças pequenas vão fazer uma cara de interrogação apenas. Nesses casos, o pai explica para o filho o que é uma bathtube. “It’s where we put water to clean you up. Mommy usually does it.”

Por que o pai não deve simplesmente falar “bathtube is a banheira”?

Dar a palavra em português, nesse caso, reforçaria a ideia de que o português é o idioma base, enquanto o inglês é o acessório. Ao se criar uma criança bilíngue, esse tipo de raciocínio deve ser evitado ao máximo. Uma língua não pode pesar mais do que a outra. Ambas devem ter o mesmo peso na vida da criança.
Ainda, em uma situação OPOL onde aquele pai que fala a língua minoritária entende a língua majoritária, ou em uma situação ML@H onde os pais entendem a língua majoritária, a criança pode deduzir que o esforço para utilizar a língua minoritária não compensa.

Algo do tipo: “Se eles também falam português, pra que eu vou me dedicar para falar inglês?”.

Mesmo com esse cuidado, isso pode acontecer. O importante é se manter irredutível. Mesmo que a criança se recuse a falar um idioma, ela ainda irá conviver com ele. Ela terá o que chamamos de fluência passiva. Transformar a fluência passiva (ouvir) em ativa (falar) é muito mais fácil do que ensinar a língua do zero. Então, mesmo que seu filho se recuse a falar o idioma, vale a pena insistir e “ensinar” a outra língua para ela. Acredite, o bilinguismo é um enorme presente que você dará para seus filhos!

Um grande abraço,



terça-feira, 15 de julho de 2014

Ensinando uma criança bilíngue a escrever nas duas línguas.

Antes de começar, gostaria de agradecer ao Breno pelo comentário que gerou este post (e parabeniza-lo pela gravidez!).

Em seguida, aviso que os comentários a seguir são uma mistura de pesquisa com opinião. Meus filhos, devido às suas idades (1 ano / 2 anos) ainda não leem. Portanto, não tenho muita ‘prática’ no assunto. Rs

A primeira coisa a ser considerada acerca de crianças bilíngues é: “Qual o seu objetivo ao criar seu filho bilíngue?”. Às vezes, saber falar e entender o idioma já atinge o objetivo estabelecido. Em outros casos, a família espera uma criança alfabetizada nos dois idiomas.

A partir da resposta acima, os pais podem traçar metas e estratégias para alcança-las.

Vou responder os questionamentos dele aqui para esclarecer um a um.

“Como vou fazer meu filho escrever em inglês?”

O processo de escrever sempre vem depois do processo de leitura. O primeiro passo, então, é familiarizá-lo com o idioma escrito por meio da leitura. Depois de familiarizado com a leitura (fase passiva), a criança está pronta para começar na escrita (fase ativa).

Como tudo no mundo do bilinguismo, não existe resposta pronta ou solução ideal para o caso. A partir de alguns relatos e textos, verifiquei que é mais comum ensinar a escrever em um idioma primeiro, para então iniciar o segundo. Algumas escolas bilíngues de São Paulo usam esse método, introduzindo a escrita na segunda língua um ano depois da primeira.

Isso se mostrou mais verdadeiro quando os alfabetos são os mesmo (inglês-português, por ex.) do que em casos de alfabetos distintos (japonês-português). Nos casos de alfabetos diferentes, o ensino simultâneo não parece confundir a criança.

Para muitas famílias ao redor do mundo, o que ocorre é o seguinte: a escola fica incumbida do ensino de um idioma, e a família se encarrega do outro.

Para muitas línguas, entidades governamentais e ONGs disponibilizam diversos materiais gratuitos (download) para ajudar os pais a alfabetizar seus filhos. [disponibilizei alguns links aqui]

A família pode escolher entre alguns métodos para garantir que seus filhos sejam alfabetizados nas duas línguas:

- Deixar a alfabetização nas duas línguas a cargo de uma escola bilíngue;
- Deixar a escola responsável por um idioma e ensinar o outro em casa; ou
- Deixar a escola responsável por um idioma e outra escola (sejam cursos de idioma ou escolas estrangeiras via Educação à Distância) encarregada do outro.

“Pois sabemos que a relação fonema e letra é bem diferente entre português e inglês. Isso não irá causar estranheza?”

A relação fonema letra entre essas duas línguas é bem diferente. O português é uma língua mais estruturada e mais ‘pura’, por se tratar de uma língua latina (originária do latim). Seus fonemas são mais rígidos, i.e., não é comum uma mesma vogal ou sílaba ser pronunciada de forma diferente em palavras diversas.

O inglês é uma língua anglo-saxã, cuja origem remonta aos antigos idiomas germânicos. A partir daí, com a invasão da Inglaterra e a proximidade com os demais países europeus, o idioma foi se alterando, absorvendo uma quantidade enorme de termos estrangeiros. Como resultado, existem palavras em inglês que mantém uma pronuncia germânica, enquanto outras possuem pronuncias latinas (dentre outras).

Para exemplificar:

Kindergarten [kin-der-gahr-tn, -dn] /ˈkɪnDescrição: http://static.sfdict.com/dictstatic/dictionary/graphics/luna/thinsp.pngdərˌgɑrDescrição: http://static.sfdict.com/dictstatic/dictionary/graphics/luna/thinsp.pngtn, -dn/ - pré-escola. Origem germânica. (Pronuncia: “KINDergarden”)
Kind [kahynd] /kaɪnd/ - Bom, gentil, amável. Origem inglês antigo. (Pronuncia: “KAIND”)

Ou ainda Utter [uht-er] e Utopia [yoo-toh-pee-uh]. O mesmo U tem duas pronuncias bem distintas.

Apesar dessa diferença de pronuncias no idioma inglês, os americanos conseguem ler e escrever tranquilamente. A diferença é que um brasileiro alfabetizado (conhecedor das regras gramaticais) consegue pronunciar qualquer palavra que ele encontre, mesmo que ele não saiba o significado da mesma e nunca a tenha visto antes. Um americano, por sua vez, não conseguirá pronunciar corretamente uma palavra que ele não saiba a origem, significado ou que ele não tenha ouvido antes. (Existe um teste curioso que evidencia isso nesse link).

Saber que os americanos conseguem ser alfabetizados, mesmo com essas divergências, é bem reconfortante para nós. =)

Devemos lembrar também que crianças são esponjas de conhecimento. Existem palavras que são similares, mas possuem pronuncias diversas entre português e inglês. Por exemplo: toilet/toalete, manual, federal, utopia etc.

Sabendo que existem divergências na língua falada, e que elas não confundem ou atrapalham o desenvolvimento das crianças bilíngues, podemos afirmar com certeza que divergências fonéticas não irão causar nenhum impacto negativo em nossos filhos.

Acredito que foi devido a essas diferenças que a escolha mais comum tem sido ensinar um idioma de cada vez.

 “Não irá prejudicar seu rendimento escolar na disciplina de português?”
                                 
Fique tranquilo. Estudos indicam que o desempenho acadêmico de crianças bilíngues é quase sempre superior ao de crianças monolíngues. Isso pode ter algumas explicações, mas a mais aceita é que crianças bilíngues possuem uma melhor compreensão da estrutura das línguas.

Conclusão

Diante de todo o exposto, o caminho a ser seguido por famílias bilíngues para conseguir fazer seus filhos lerem e escreverem é o mesmo de família monolíngues. A leitura deve ser incentivada, desde cedo.

[Não vejo óbice em continuar lendo livros com a criança em um idioma enquanto ela é alfabetizada no outro. Eu faço isso e recomendo, pois além de ser um tempo de qualidade com a criança, livros são ricos em vocabulário.]

Aqui cabe um breve aviso, na hora de incentivar seu filho a ler, escolha livros para a faixa etária dele, com vocabulário novo, mas dentro de sua capacidade de compreensão. Uma criança estimulada com livros desafiadores vai virar uma grande leitora, mas uma que tropece e tenha dificuldades em compreender aquilo que lê pode fugir dos livros. Devemos encorajar novas descobertas, desde que elas estejam dentro da capacidade da criança, senão corremos o risco de frustrá-la.

[Dica: livrarias grandes costumam ter livros em outros idiomas, mas para um acervo mais amplo, recomendo a loja TheBookDepository, eles possuem diversos títulos infantis e entregam com frete grátis no mundo inteiro.]

Um grande abraço,


quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Como e quando começar?

Uma das principais dúvidas sobre o assunto "criação bilíngue" é como fazer para começar, e qual a idade certa para isso.

Vamos começar pela mais fácil:

Quando começar?



A resposta padrão para essa pergunta é: Agora!
Se você já definiu o sistema que irá utilizar, pode começar desde já.
Mesmo que o seu filho ainda seja pequeno, não fale, ou nem tenha saído da barriga ainda, pode começar agora!



Eu comecei a usar o OPOL com a minha filha quando ela tinha 4 meses de vida. Simplesmente, da noite pro dia, passei a falar com ela em inglês. Eu não fiz isso antes pois estava buscando mais informações sobre o assunto, e quando estava com tudo definido, comecei!
Nosso segundo filho ainda está na barriga, e já usamos o sistema OPOL com ele.



Referências científicas:

Alguns estudos mostraram que a criança ao nascer já reconhece o idioma de sua mãe. Isso se deve ao fato de ela ter ouvido esse idioma durante todo o seu tempo no útero materno. O estudo foi assim: colocaram em recém nascidos chupetas que mediam a intensidade e a frequência com que o bebê chupava a chupeta. Houve uma diferença nítida entre um neném ouvindo o seu idioma materno e um ouvindo um novo idioma.
Um estudo similar mostrou que os nenéns também respondem a sons novos, como vogais que não existem na sua língua pátria.
Isso mostra que, desde o útero, os bebês já estão prestando atenção ao idioma que os rodeiam.



Minhas opiniões:

Ainda que os estudos mostrem isso, é difícil crer que falar com a criança em outro idioma desde antes do nascimento possa ter grandes diferenças com o resultado que seria obtido caso o mesmo fosse feito apenas quando a criança completasse um ano.


Um fato é que as crianças gostam de rotina. A previsibilidade da rotina é algo que ajuda muito no desenvolvimento das crianças. Por isso, quanto mais cedo você implementar o sistema novo, menor será a resistência que você irá encontrar.


Para exemplificar: uso somente o inglês com a minha filha de 18 meses. Outro dia, por curiosidade, decidi chamar ela em português. Para minha surpresa, ela virou a cara pra mim, e ficou emburrada! rs Ela só veio até mim quando a chamei em inglês.

Isso apenas ilustra o que eu disse. É muito mais fácil introduzir um sistema desses enquanto a criança ainda é um bebê. Mas nada impede que esse sistema seja introduzido posteriormente. Em fóruns internacionais, já li relatos de pais que conseguiram introduzir o OPOL em crianças maiores de 8 anos! Obviamente, eles encontraram uma resistência enorme por parte das crianças. Mas com insistência e força de vontade, eles conseguiram.



Um outro ponto positivo de começar cedo é que você se acostuma com a ideia de usar um outro idioma com seu filho mais cedo. E tem um tempo maior pra desenferrujar. rsrs
Mesmo para pessoas que não pensam estar prontas para o 'desafio', começar quando a criança ainda é um bebê só traz benefícios. Um bebê requer um vocabulário muito pequeno, quando comparado a um toddler ou a uma criança maiorzinha. Então, você terá todo o tempo do crescimento dele para turbinar seu segundo idioma.


Agora, vamos a segunda, e mais complicada, questão:

Como começar?



Na verdade, para começar basta definir o sistema que sua família irá utilizar. E isso é o mais complicado.
Você pode ler o que eu já escrevi sobre os métodos aqui.


Para definir qual método utilizar, você precisa se fazer alguns questionamentos:

1. Qual o grau de imersão que eu quero dar ao meu filho em X (idioma 1)? E em Y (idioma 2)?


Responder a essa questão é fundamental para que a família defina qual método irá seguir. Uma família em um país onde o idioma falado não é o dos pais tende a escolher o ML@H (Minority Language At Home). Ao passo que um casal onde apenas um dos pais não fala a língua local tem maior tendência a optar pelo OPOL (One Parent, One Language).


Como esse blog tem como público-alvo pais não-nativos que desejam ensinar esse segundo idioma aos filhos, o questionamento toma outra forma. Transformar uma casa com pai e mãe brasileiros em um local onde apenas um outro idioma é falado pode ser uma tarefa complicada.
Casais cujo idioma nativo é o mesmo irão falar entre si nesse idioma. Mudar isso de uma hora pra outra pode ser uma tarefa impossível.



A saída mais comum é a utilização do OPOL, onde cada pai ensinará uma língua às crianças. Porém, outras derivações são bem-vindas. Os pais podem falar ambos no segundo idioma com a criança, e no idioma nativo entre si. Esta é uma derivação do ML@H.

Tudo isso dependerá do grau de imersão que os pais desejam aos filhos.

2. Você(s) está(ão) preparado(s) para deixar que outras pessoas ensinem o seu idioma nativo aos seus filhos?


Caso a resposta de um dos pais seja negativa, este preferirá ser o responsável pela transmissão do português. Caso os pais não se incomodem em deixar esta tarefa para outras pessoas, então o ML@H passa a ser uma opção.


Para ajudar, vou compartilhar como foi nossa escolha.
Eu queria para meus filhos uma imersão razoável no inglês, mas sem negligenciar o português. Sempre quis ser chamado de 'papai', não de 'daddy'. Então, um dos fatores que mais pesou na nossa escolha foi o peso que queríamos para cada idioma. Nós queríamos o português mais presente, pelo menos no começo. E como nossa filha passa o dia com a mãe, ela ficou responsável pelo ensino do português, e eu do inglês.
Hoje em dia, ela está com 18 meses e nós não percebemos nenhum grau de diferença na compreensão dela entre o inglês e o português. Mas, ela mesmo sabendo que eu sou o 'daddy' dela, ela me chama de 'papai'. =)


Responder a essas duas questões pode ajudar na definição do sistema a ser utilizado.


Sei que eu insisto bastante nessa tecla, mas lembre-se: não existe método perfeito. O que existe é o método perfeito para cada família.
É o caso, por exemplo, de uma mãe solteira. Ela pode usar o sistema ML@H, ensinando ao seu filho sua segunda língua e deixando a cargo de parentes e da escola ensinar o português. Ela poderia também criar um sistema próprio de línguas em sua casa. Alternando ela mesma entre os idiomas. Essa alternância pode ser por dia, por dia da semana, ou até por horário.
Neste caso, a fase na qual a criança irá misturar os idiomas pode ser um pouco maior do que a maioria. Mas mesmo assim, ela passará logo, e a criança será proficiente em ambas as línguas.


A dica então é: assim que você decidir qual abordagem tomará, e qual sistema irá seguir, com eventuais ajustes para que ele se adeque à sua família, já pode começar a colocá-lo em prática.
=)
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