quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Como escolher uma escola bilíngue?

O tema abordado não é simples. Apesar do título da postagem, o texto vai falar sobre como escolher uma escola, seja ela bilíngue ou não. Não pretendo esgotar o tema, e sim dar algumas linhas gerais.

Ao escolher uma escola, a família deve levar em conta alguns fatores:

1. Equipe: aqui, a verificação deve ir além de títulos e certificados, é interessante observar o comportamento da equipe com as crianças e o das crianças com a equipe. Crianças que nutrem carinho pelos professores são um ótimo indicativo.
2. Instalações: esse quesito diz respeito à segurança e ao conforto. Para crianças pequenas, verifique se as tomadas estão cobertas, se a escada é de fácil acesso, e se existem outros perigos para os pequenos. Para os maiores, salas de aulas e laboratórios são um bom local para começar. Aviso que os pequenos vão julgar a escola apenas pelo parquinho, enquanto os maiores o farão pela quadra de futebol.
3. Turmas: Verifique o número de alunos por turma. Isso é especialmente válido para crianças menores, pois um maior número de crianças significa menos atenção para seu filho e mais chance dele ficar constantemente doente.
4. Rotina: Verifique se a rotina da escola se adequa à sua (horários) e se você concorda com aquela rotina. Cuidado para não esgotar seu filho com uma rotina muito puxada.
5. Linha pedagógica: Crianças de 5 anos treinando para o vestibular ou intensivão bicho-grilo? Veja qual é a preocupação da escola em relação aos objetivos de ensino. Existem escolas mais focadas em preparar o aluno para o mercado de trabalho, enquanto outras o preparam para a vida. Idealmente, sugiro procurar uma que pense em ambos. (Lembrando que o que vale é a prática, pois o discurso costuma ser sempre parecido)
6. Custo: É importante que a escola caiba confortavelmente no orçamento familiar. Essa escolha, como todas que envolvem dinheiro, deve ser feita de forma responsável.
7. Localização: A localização da escola deve ser levada em conta, mas não acredito que deva ser o principal diferencial na hora de escolher.
8. Indicação/recomendação: Busque opiniões de quem já matriculou seus filhos nesta escola.

Mas como escolher a escola bilíngue para o seu filho?

Primeiro, vemos analisar as possibilidades:

1.       Escolas Bilíngues: Currículo dividido entre os idiomas. Ano letivo brasileiro.
Prós: dão à criança um bom panorama das duas culturas.
Contras: muitas escolas bilíngues possuem equipes fracas (cuidado com esse ponto).
Preço: $$$

2.       Escolas internacionais: Currículo similar ao do país de origem da escola. Ano letivo americano (início em agosto).
Prós: possuem boa infraestrutura e profissionais bem qualificados. Emitem diploma do país de origem (ou duplo).
Contras: Podem negligenciar a realidade brasileira (vestibular).
Preço: $$$$$

3.       Escolas tradicionais: Currículo brasileiro. Ano letivo brasileiro.
Prós: professores qualificados e boa infraestrutura. As melhores oferecem sistema High School (diploma duplo)
Contras: O inglês é objeto do ensino, não instrumento.
Preço: $ - $$$

4.       Escolas Onlines Internacionais: Currículo do país de origem. Ano letivo internacional.
Prós: professores qualificados. Diploma do país de origem.
Contras: Aulas apenas virtuais.
Preço: $$-$$$$

5.       Homeschooling: Prática não regulamentada no Brasil. Pode ser usada apenas de forma complementar.
Prós: o pai e/ou a mãe são os instrutores, isso reforça vínculos familiares.
Contras: Exige tempo e dedicação do aluno e dos pais.
Preço: Grátis - $
(Nota: apesar de não regulada, existem posições importantes defendendo esse direito. Por exemplo, a tese do Ministro do STJ. Disponível em http://bdjur.stj.jus.br/xmlui/bitstream/handle/2011/260/Aspectos_Constitucionais_e_Infraconstitucionais.pdf )

Aqui, vemos claramente um trade-off, uma troca. As escolas internacionais costumam ser grandes e com uma infraestrutura excelente, mas custam fortunas. Escolas bilíngues adicionam o inglês e cobram bastante por isso. Uma escola bilíngue com uma infraestrutura regular chega a cobrar R$ 1,5 mil por mês (idade – 4 anos). Pelo mesmo valor, os pais podem escolher praticamente qualquer escola tradicional.
Cabe aos pais ponderar o quanto de importância eles querem dar a cada idioma. Uma família que planeja mudar de país pode achar mais fácil escolher uma escola internacional. Uma família que pensa em permanecer no Brasil pode escolher uma escola tradicional.
Usar escolas online é uma boa opção para complementar os estudos da criança que cursa uma escola tradicional. O aluno faria meio período na escola tradicional e meio período cursando a escola virtual. Recomendo o site http://www.onlineschools.org para se informar sobre o assunto. Os custos variam de $ 2 a 12 mil dólares por ano (R$ 400 a 2 mil reais por mês).
Julgando esses fatores, aliados com os itens elencados acima, os pais podem chegar a uma decisão com uma certeza maior. Se a família não possui condições de colocar seus filhos em uma escola internacional, mas prezam mais pela infraestrutura e tradição do que para o segundo idioma, pode escolher com segurança uma escola tradicional. Se o aspecto linguístico é o principal a ser ponderado, talvez valha a pena visitar algumas escolas bilíngues.

Para ajudar os leitores, vou compartilhar nossa decisão.

Como criamos nossos filhos no sistema OPOL, eles já são bilíngues dentro de casa. Não fazemos questão de que seja a escola que os alfabetizem em inglês. Por conta disso, escolhemos uma escola tradicional com uma boa infraestrutura, relativamente próxima de nossa casa. Manteremos o inglês em casa, e iremos analisar a situação conforme eles forem crescendo.
Em nenhum dos estados que moramos (SP e DF), encontramos escolas bilíngues com boa infraestrutura (próximas de casa). No geral, são sobradinhos adaptados. Algumas (as mais caras) possuem uma área um pouco maior, mas ainda assim são pequenas para a quantidade de alunos.

Em relação à questão levantada (“Escolhendo a melhor escola bilíngue”), é importante:

1.       Ouvir a equipe usando o segundo idioma para ver o grau de proficiência na língua (certificados como TOEFL e Cambridge não substituem o olhar dos pais). Os pais poderão perceber se aquele profissional está confortável no idioma, isso é, se ele soa natural ao usá-lo.
2.       Tentar ouvir as crianças usando a segunda língua. Afinal, elas são a prova de sucesso ou insucesso da escola. O ideal seria andar pelos corredores da escola ouvindo diferentes crianças para evitar que a diretora, por coincidência, lhe apresente para a filha do cônsul americano. Obviamente, a ideia aqui não é inquerir os alunos (coisa que os incomodaria e que nenhum pai gostaria que fosse feita aos seus filhos na escola), e sim, ter uma abordagem de observador.
3.       Analisar a comunicação da escola. Escolas bilíngues costumam ter sites, folders, cartazes no idioma minoritário. Julgue-os para auferir a seriedade da escola. [Visitamos uma escola em São Paulo que tinha uma placa de Sleepy’s Room (quarto do Sleepy) ao invés de Sleeping Room (quarto de dormir)].
4.       Cuidado com mistura de línguas. Misturar duas línguas é uma técnica não indicada pelos linguistas. Infelizmente, muitas escolas fazem isso. Isso serve para dar aos pais a impressão de que a criança está ‘virando bilíngue’. Explico. Se todos os dias, a professora diz “é hora do snack” ou “quem quer um pouco de juice?”. Com o passar do tempo, a criança irá aprender essas duas palavras, e, dependendo da idade, irá usá-las com os adultos em casa. Porém, uma criança que fala “mãe, eu quero um juice” não é necessariamente bilíngue, ela pode conhecer apenas essa palavra em inglês da frase toda.

O acompanhamento deve seguir mesmo depois da escolha. Passados alguns meses, a criança, se não era bilíngue ao entrar na escola, já deve entender/falar algumas palavras. Cuidado para não tentar ‘exibir’ as novas habilidades linguísticas de seu filho, pois isso pode ter o efeito inverso. Ele pode ver o idioma minoritário como algo ‘diferente’, e crianças possuem uma vontade natural de pertencer/ser igual aos demais. Se a criança já era bilíngue, pouca ou nenhuma mudança deve ser observada em seu comportamento em casa. Lembrando que crianças bilíngues alternam entre os idiomas e que pode existir um idioma preferido de acordo com a idade e realidade da criança. Vou dar um exemplo: uma criança bilíngue que entre em uma escola onde apenas o inglês seja utilizado (pelos professores) ainda pode começar a falar mais o português pelo simples motivo de que as demais crianças da sala não eram bilíngues antes de entrar na escola, e, por isso, usam mais o português. Nesse caso, o desejo por pertencer e a convivência com os demais alunos podem levar a criança a usar mais o português.

Espero ter ajudado nessa hora tão difícil.

Um grande abraço!


terça-feira, 19 de agosto de 2014

Criar um filho bilíngue não é ensinar outra língua!

A afirmação do título pode parecer contraditória, mas permita-me explica-la.

Em diversas ocasiões, perguntaram-me como eu estava ‘ensinando’ inglês para meus filhos. Em muitos casos, a ideia de quem me perguntava isso era de que eu ensinava a ela da mesma forma que as escolas de inglês fazem: sentando-a em uma cadeira e começando a falar “em inglês, a cor vermelha se chama red. Red. Então, para falar maçã vermelha, falamos red apple”.

Essa é uma boa forma de ensinar um idioma, mas não funciona com crianças muito pequenas e não tem nada a ver com uma criação bilíngue.

Um filho bilíngue aprende as duas línguas da mesma forma. Isso significa que não se usa um idioma como instrumento para ensinar o outro. A criança está aprendendo a decifrar o mundo, e seu conhecimento ao nascer é [praticamente] o mesmo em qualquer língua (nulo).

Por isso, seu aprendizado da segunda língua deverá ocorrer de forma natural e interativa. A criança deve aprender experimentando, convivendo e interagindo com o idioma. Se a criança nunca viu um liquidificador, ela não lhe atribuiu nenhum nome ainda, em nenhuma língua. Ao ver um pela primeira vez, recebe a informação de que “that’s a blender”. Agora a criança já atribuiu um nome ao objeto (Blender).

Se uma semana depois, recebe a seguinte informação “isso é um liquidificador”, a criança vai entender que ‘liquidificador’ é outra forma de falar ‘blender’.

Em todos os idiomas que conheço, existem sinônimos. Palavras diferentes para significar a mesma coisa ou coisas muito parecidas. Temos diversos exemplos em português:

Montanha, morro, colina, monte. // Mar, oceano, pélago. // Carro, automóvel, veículo.

O mesmo ocorre em inglês:

Mountain, cliff, mount, hill. // Sea, ocean. // Car, automobile, vehicle.

Apesar de existirem leves diferenças entre o uso das palavras citadas, podemos considera-las como sinônimas. Ninguém deixará de ser compreendido se usar o termo oceano no lugar de mar. Diante disso, vemos que é natural às crianças (e aos adultos) atribuírem mais de um nome a um mesmo objeto.

Agora que já sabemos que não existe problema em saber dois nomes para o mesmo objeto, gostaria de fazer um alerta sobre a criação de uma criança bilíngue:

É normal que a criança bilíngue tenha um idioma dominante, que será aquele que ela falará mais. É normal, também, que o idioma dominante se altere com o tempo, ora um ora outro. É importante para os pais respeitar essa escolha, mas nunca abrir mão do idioma ‘secundário’. Em uma criação OPOL onde a mãe fica em casa, é normal que a criança desenvolva um vocabulário maior no idioma da mãe devido ao convívio. O pai, então, pode se deparar com situações onde a criança sabe a palavra apenas no idioma da mãe. Nessa situação, é importantíssimo que o pai não traduza para o idioma da mãe.

Vou dar um exemplo para explicar. Uma família OPOL onde o pai fala inglês e a mãe português (qualquer semelhança com a situação de quem vos escreve não é mera coincidência rs). Todos os dias, a mãe é a responsável pelo banho. Ela pede pra seu filho “entre na banheira, por favor”. O filho já sabe o que é a banheira.

Imaginem que a mãe peça para o pai dar o banho um dia, e ele prontamente o faz. Ele então pede ao filho “can you get in the bathtube, please?”. O filho não conhece a palavra bathtube, então o pai tem algumas possibilidades. Ele pode apontar e mostrar para o filho o que é bathtube (banheira). Ao ver seu pai apontando para a banheira, a criança irá entender que ambas as palavras se referem ao mesmo objeto.

Caso o pai tenha recebido outra tarefa, também relacionada à hora do banho, como comprar uma banheira maior. O pai, já na loja, fala para o filho que “we’re going to buy you a new and bigger bathtube”. Dependendo da idade, o filho vai perguntar para o pai “o que é isso?”. Crianças pequenas vão fazer uma cara de interrogação apenas. Nesses casos, o pai explica para o filho o que é uma bathtube. “It’s where we put water to clean you up. Mommy usually does it.”

Por que o pai não deve simplesmente falar “bathtube is a banheira”?

Dar a palavra em português, nesse caso, reforçaria a ideia de que o português é o idioma base, enquanto o inglês é o acessório. Ao se criar uma criança bilíngue, esse tipo de raciocínio deve ser evitado ao máximo. Uma língua não pode pesar mais do que a outra. Ambas devem ter o mesmo peso na vida da criança.
Ainda, em uma situação OPOL onde aquele pai que fala a língua minoritária entende a língua majoritária, ou em uma situação ML@H onde os pais entendem a língua majoritária, a criança pode deduzir que o esforço para utilizar a língua minoritária não compensa.

Algo do tipo: “Se eles também falam português, pra que eu vou me dedicar para falar inglês?”.

Mesmo com esse cuidado, isso pode acontecer. O importante é se manter irredutível. Mesmo que a criança se recuse a falar um idioma, ela ainda irá conviver com ele. Ela terá o que chamamos de fluência passiva. Transformar a fluência passiva (ouvir) em ativa (falar) é muito mais fácil do que ensinar a língua do zero. Então, mesmo que seu filho se recuse a falar o idioma, vale a pena insistir e “ensinar” a outra língua para ela. Acredite, o bilinguismo é um enorme presente que você dará para seus filhos!

Um grande abraço,



terça-feira, 15 de julho de 2014

Ensinando uma criança bilíngue a escrever nas duas línguas.

Antes de começar, gostaria de agradecer ao Breno pelo comentário que gerou este post (e parabeniza-lo pela gravidez!).

Em seguida, aviso que os comentários a seguir são uma mistura de pesquisa com opinião. Meus filhos, devido às suas idades (1 ano / 2 anos) ainda não leem. Portanto, não tenho muita ‘prática’ no assunto. Rs

A primeira coisa a ser considerada acerca de crianças bilíngues é: “Qual o seu objetivo ao criar seu filho bilíngue?”. Às vezes, saber falar e entender o idioma já atinge o objetivo estabelecido. Em outros casos, a família espera uma criança alfabetizada nos dois idiomas.

A partir da resposta acima, os pais podem traçar metas e estratégias para alcança-las.

Vou responder os questionamentos dele aqui para esclarecer um a um.

Como vou fazer meu filho escrever em inglês?”

O processo de escrever sempre vem depois do processo de leitura. O primeiro passo, então, é familiarizá-lo com o idioma escrito por meio da leitura. Depois de familiarizado com a leitura (fase passiva), a criança está pronta para começar na escrita (fase ativa).

Como tudo no mundo do bilinguismo, não existe resposta pronta ou solução ideal para o caso. A partir de alguns relatos e textos, verifiquei que é mais comum ensinar a escrever em um idioma primeiro, para então iniciar o segundo. Algumas escolas bilíngues de São Paulo usam esse método, introduzindo a escrita na segunda língua um ano depois da primeira.

Isso se mostrou mais verdadeiro quando os alfabetos são os mesmo (inglês-português, por ex.) do que em casos de alfabetos distintos (japonês-português). Nos casos de alfabetos diferentes, o ensino simultâneo não parece confundir a criança.

Para muitas famílias ao redor do mundo, o que ocorre é o seguinte: a escola fica incumbida do ensino de um idioma, e a família se encarrega do outro.

Para muitas línguas, entidades governamentais e ONGs disponibilizam diversos materiais gratuitos (download) para ajudar os pais a alfabetizar seus filhos. [disponibilizei alguns links aqui]

A família pode escolher entre alguns métodos para garantir que seus filhos sejam alfabetizados nas duas línguas:

- Deixar a alfabetização nas duas línguas a cargo de uma escola bilíngue;
- Deixar a escola responsável por um idioma e ensinar o outro em casa; ou
- Deixar a escola responsável por um idioma e outra escola (sejam cursos de idioma ou escolas estrangeiras via Educação à Distância) encarregada do outro.

Pois sabemos que a relação fonema e letra é bem diferente entre português e inglês. Isso não irá causar estranheza?

A relação fonema letra entre essas duas línguas é bem diferente. O português é uma língua mais estruturada e mais ‘pura’, por se tratar de uma língua latina (originária do latim). Seus fonemas são mais rígidos, i.e., não é comum uma mesma vogal ou sílaba ser pronunciada de forma diferente em palavras diversas.

O inglês é uma língua anglo-saxã, cuja origem remonta aos antigos idiomas germânicos. A partir daí, com a invasão da Inglaterra e a proximidade com os demais países europeus, o idioma foi se alterando, absorvendo uma quantidade enorme de termos estrangeiros. Como resultado, existem palavras em inglês que mantém uma pronuncia germânica, enquanto outras possuem pronuncias latinas (dentre outras).

Para exemplificar:

Kindergarten [kin-der-gahr-tn, -dn] /ˈkɪnDescrição: http://static.sfdict.com/dictstatic/dictionary/graphics/luna/thinsp.pngdərˌgɑrDescrição: http://static.sfdict.com/dictstatic/dictionary/graphics/luna/thinsp.pngtn, -dn/ - pré-escola. Origem germânica. (Pronuncia: “KINDergarden”)
Kind [kahynd] /kaɪnd/ - Bom, gentil, amável. Origem inglês antigo. (Pronuncia: “KAIND”)

Ou ainda Utter [uht-er] e Utopia [yoo-toh-pee-uh]. O mesmo U tem duas pronuncias bem distintas.

Apesar dessa diferença de pronuncias no idioma inglês, os americanos conseguem ler e escrever tranquilamente. A diferença é que um brasileiro alfabetizado (conhecedor das regras gramaticais) consegue pronunciar qualquer palavra que ele encontre, mesmo que ele não saiba o significado da mesma e nunca a tenha visto antes. Um americano, por sua vez, não conseguirá pronunciar corretamente uma palavra que ele não saiba a origem, significado ou que ele não tenha ouvido antes. (Existe um teste curioso que evidencia isso nesse link).

Saber que os americanos conseguem ser alfabetizados, mesmo com essas divergências, é bem reconfortante para nós. =)

Devemos lembrar também que crianças são esponjas de conhecimento. Existem palavras que são similares, mas possuem pronuncias diversas entre português e inglês. Por exemplo: toilet/toalete, manual, federal, utopia etc.

Sabendo que existem divergências na língua falada, e que elas não confundem ou atrapalham o desenvolvimento das crianças bilíngues, podemos afirmar com certeza que divergências fonéticas não irão causar nenhum impacto negativo em nossos filhos.

Acredito que foi devido a essas diferenças que a escolha mais comum tem sido ensinar um idioma de cada vez.

 “Não irá prejudicar seu rendimento escolar na disciplina de português?”
                                 
Fique tranquilo. Estudos indicam que o desempenho acadêmico de crianças bilíngues é quase sempre superior ao de crianças monolíngues. Isso pode ter algumas explicações, mas a mais aceita é que crianças bilíngues possuem uma melhor compreensão da estrutura das línguas.

Conclusão

Diante de todo o exposto, o caminho a ser seguido por famílias bilíngues para conseguir fazer seus filhos lerem e escreverem é o mesmo de família monolíngues. A leitura deve ser incentivada, desde cedo.

[Não vejo óbice em continuar lendo livros com a criança em um idioma enquanto ela é alfabetizada no outro. Eu faço isso e recomendo, pois além de ser um tempo de qualidade com a criança, livros são ricos em vocabulário.]

Aqui cabe um breve aviso, na hora de incentivar seu filho a ler, escolha livros para a faixa etária dele, com vocabulário novo, mas dentro de sua capacidade de compreensão. Uma criança estimulada com livros desafiadores vai virar uma grande leitora, mas uma que tropece e tenha dificuldades em compreender aquilo que lê pode fugir dos livros. Devemos encorajar novas descobertas, desde que elas estejam dentro da capacidade da criança, senão corremos o risco de frustrá-la.

[Dica: livrarias grandes costumam ter livros em outros idiomas, mas para um acervo mais amplo, recomendo a loja TheBookDepository, eles possuem diversos títulos infantis e entregam com frete grátis no mundo inteiro.]

Um grande abraço,


quinta-feira, 12 de junho de 2014

Relato: A Longa Ausência

Antes de iniciar o relato, preciso contar um pouco do que aconteceu.

Nós morávamos em São Paulo-SP, onde eu atuava como consultor de Comunicação Corporativa (Branding) e de Comércio Internacional (COMEX) [Não errei a digitação, sei que as duas atividades não são muito correlatas, mas era o que eu fazia rs].

No início de 2014, comecei a atuar na Controladoria da Presidência da República (CGU) em Brasília-DF. Para efetuar tal mudança, precisei vir antes para Brasília para organizar a mudança, escolher moradia, etc. enquanto trabalhava.

Já sabíamos que a mudança só iria acontecer dois meses depois da minha partida.

Além de toda a ansiedade causada pela mudança (pois nunca havia morado em nenhum outro Estado), e de todo o peso no peito por ficar longe das crianças numa fase onde perder um mês significa perder diversos marcos de desenvolvimento, eventualmente nos demos conta de que, se mantivéssemos o sistema OPOL (eu inglês e a Patty português), eles ficariam dois meses sem contato com o inglês. 
[Mais sobre os métodos para se criar um filho bilíngue nesse post.] 

Por conta disso, começamos a pensar em formas de contornar a situação. As crianças já assistiam TV apenas em inglês, então não mudamos isso. Mas sabemos que o contato humano transmite vocabulário muito melhor do que um programa de TV. Isso ocorre, pois a criança atua de forma passiva com a televisão, não podendo interagir com a mesma. Ainda que alguns programas incentivem algum nível de interação (Mickey Mouse Club-House e Pocoyo, por exemplo), a criança não recebe uma reação genuína à sua ação. Quando ela interage com um adulto, ela recebe uma reação genuína e imediata para tudo que fala. Se ela fala algo incompreensível, recebe uma cara de interrogação, o que vai fazê-la reestruturar a frase, ou corrigir a pronuncia.

A saída que encontramos foi suspender temporariamente o OPOL. A Patty começou a fazer um sistema de divisão das línguas por horário. Do momento que eles acordavam, até depois do almoço, apenas o inglês era utilizado. Depois do almoço, até a hora de dormir, ela usava o português.

Evidentemente, eu ligava todos os dias de noite para falar com eles. Conseguimos, inclusive, fazer algumas vídeo-chamadas pra amenizar a saudade.

O resultado dessa ausência foi neutro (Linguisticamente falando, lógico, pois à parte emocional foi difícil. Até hoje ela ocasionalmente me pergunta se eu vou voltar ‘hoje’ quando saio pra trabalhar.).

Quando eu digo que foi neutro, é porque não verificamos nenhum atraso no vocabulário que ela já tinha. Não verificamos nenhuma dificuldade em compreender um ou outro idioma. E, principalmente, não houve nenhum tipo de antipatia por nenhuma das línguas.

Notamos, porém, que durante esse período (talvez devido ao contato mais frequente com a avó) ela passou a utilizar mais o português. Poucas semanas após meu retorno, a divisão voltou a ser equilibrada.

A situação foi facilitada por termos respeitado um sistema relativamente rígido ao longo da criação dela. Identificamos que o contato com o inglês era prejudicado pela localidade geográfica (Brasil), por isso, procuramos sempre oferecer outros tipos de exposição ao idioma, como livros, músicas e televisão.

Para a manutenção do segundo idioma na minha ausência, o fato de que minha esposa também é fluente em inglês, sem dúvida, auxiliou muito para essa conquista. Em situações similares, onde o pai viaja por muito tempo e a mãe não seja fluente naquele idioma (ou vice versa), é importantíssimo garantir um contato da criança com o idioma, seja com livros, filmes, músicas, parentes, playdates (grupos de brincadeira naquele idioma). Caso a mãe possua algum conhecimento no idioma, por mais básico que seja, sugiro que ela o utilize com a criança durante a ausência do pai (Por algumas horas por dia ou alguns dias na semana). Lembrando que “algum contato é melhor que nenhum contato”.


Um grande abraço!

PS.: Que belo começo de Copa do Mundo! 3x0! Vai Brasil!

PPS.: Essa foi depois do 7x1. ='/


sexta-feira, 6 de junho de 2014

É normal uma criança bilíngue conjugar verbos de forma errada ou misturada?

Pais de crianças bilíngues podem se preocupar quando seus filhos começam a conjugar verbos de forma errada ou até misturando regras gramaticais dos dois idiomas.

Mas confie em mim, isso é algo absolutamente normal e é um bom sinal!

Crianças monolíngues também conjugam verbos de forma incorreta, sejam elas monolíngues de Português, de Inglês ou qualquer outra língua. Gramática é algo complexo, que requer tempo para ser absorvido.

Crianças que já sabiam falar ‘went’ para fui, podem começar a falar ‘goed’ (go + ed). Isso é normal, e, como eu disse, é um bom sinal, pois mostra que a criança entendeu o conceito da terminação ‘ed’ e está começando a aplica-lo de forma experimental. Com o tempo, a criança entende que existem exceções para essa regra.

Em português as coisas são mais complicadas. Temos tantos tempos verbais e tantas pessoas para conjugar os verbos que as crianças demoram a acertar tudo. É normal crianças dizerem ‘eu comeu’, no lugar de ‘eu comi’. A Yuna outro dia parou de andar e me disse ‘eu pari’ no lugar de ‘eu parei’.  Eu fiquei super feliz com a capacidade dela de usar essa regra em um verbo novo, e morri de rir com o resultado. =D

Crianças bilíngues também costumam importar regras gramaticais de um idioma para o outro. Já presenciei isso diversas vezes em casa.

“Eu choosei esse.” [choosei = choose (escolher) + ei].

“Mommy already pented my hair.” [pented = pentear + ed].

Se o seu filho está conjugando errado, veja se crianças monolíngues da mesma idade também o fazem. Lembre-se que cada criança é única e que cada filho é um filho, por isso o desenvolvimento do primeiro pode ser mais rápido que o segundo filho, assim como o desenvolvimento de alguns coleguinhas pode ser mais rápido do que de outros. Então, o ideal é ver a média. Se seu filho estiver na média, ou próximo a ela, então está tudo bem.

Um apelo: não se preocupe com isso. Assim como a mistura de línguas, os erros de conjugação irão desaparecer antes que seu filho saia da infância e não comprometerão em nada o seu desenvolvimento. Erros de conjugação também não estão atrelados ao bilinguismo, e nada indica haver relação entre ambos.

Convido os leitores a compartilharem as conjugações ‘criadas’ por seus filhos aqui nos comentários!


Um grande abraço,


segunda-feira, 2 de junho de 2014

Breve Relato

Antes mesmo de qualquer coisa, peço desculpas aos meus leitores pela longa ausência.

A boa notícia é que agora as atualizações serão frequentes!

Vou fazer um breve relato de como tem sido nossa experiência:

Com a Yuna, nós estávamos começando no mundo prático do bilinguismo. Já com o William as coisas fluíram mais naturalmente.

A Yuna está com 2 anos e 9 meses, enquanto o Liam completou um ano. Devido à idade dele, não podemos esperar muita coisa ainda em se tratando de vocabulário, então focarei o post no desenvolvimento da Yuna.

Ela sempre aceitou muito bem o fato de termos dois idiomas falados em casa. Exatamente por termos começado cedo, essa é a única realidade que ela conhece. Durante o período de 1 ano até pouco depois de ela completar 2 anos, ela alternava entre os idiomas com qualquer pessoa. Isso gerou certa frustação nela quando pedia algo em inglês e a outra pessoa não a entendia. Nessas situações, eu sempre explicava o que ela havia dito para a outra pessoa, sem nunca corrigi-la.

Por exemplo, se ela falasse “Bobó, I want more juice please” eu dizia “Vovó, ela disse que quer mais suco, por favor”. Isso a mostrava que ela havia pedido certo, mas que a vovó não entendia aquele conjunto de palavras. Aos poucos, fomos notando que, apesar de ter mantido uma taxa de crescimento parecida no vocabulário de ambas as línguas, ela começou a usar, cada vez mais, o português com familiares e estranhos.

Hoje em dia, poucas vezes ela usa o idioma ‘errado’ para falar com alguém.

Notem que quando eu digo que ela disse em português, isso significa que a construção e a maioria das palavras eram em português. Eventualmente, ela ainda troca palavras entre os idiomas e conjuga verbos de forma misturada (‘choosei’ = choose [escolher] + ei [passado]).

Nessa fase, as construções começam a ficar cada vez mais complexas! E o curioso (e mais legal) é que algumas delas vêm ‘do nada’. Um belo dia, ela decide imitar uma frase que ouviu há quase um mês atrás e deixa todo mundo boquiaberto rsrs.

Outro dia, ela me oferece uma bolinha pula-pula e disse: “I cooked icecream for you. Liam can’t eat this one because he’s a little baby.

É nessa fase que o esforço do bilinguismo dá seus resultados mais evidentes (até agora). É nessa hora que temos que tomar cuidado para não minar o desenvolvimento de um idioma forçando a criança a usá-lo. Tratarei disso em post específico.


Um grande abraço!



quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Como e quando começar?

Uma das principais dúvidas sobre o assunto "criação bilíngue" é como fazer para começar, e qual a idade certa para isso.

Vamos começar pela mais fácil:

Quando começar?



A resposta padrão para essa pergunta é: Agora!
Se você já definiu o sistema que irá utilizar, pode começar desde já.
Mesmo que o seu filho ainda seja pequeno, não fale, ou nem tenha saído da barriga ainda, pode começar agora!



Eu comecei a usar o OPOL com a minha filha quando ela tinha 4 meses de vida. Simplesmente, da noite pro dia, passei a falar com ela em inglês. Eu não fiz isso antes pois estava buscando mais informações sobre o assunto, e quando estava com tudo definido, comecei!
Nosso segundo filho ainda está na barriga, e já usamos o sistema OPOL com ele.



Referências científicas:

Alguns estudos mostraram que a criança ao nascer já reconhece o idioma de sua mãe. Isso se deve ao fato de ela ter ouvido esse idioma durante todo o seu tempo no útero materno. O estudo foi assim: colocaram em recém nascidos chupetas que mediam a intensidade e a frequência com que o bebê chupava a chupeta. Houve uma diferença nítida entre um neném ouvindo o seu idioma materno e um ouvindo um novo idioma.
Um estudo similar mostrou que os nenéns também respondem a sons novos, como vogais que não existem na sua língua pátria.
Isso mostra que, desde o útero, os bebês já estão prestando atenção ao idioma que os rodeiam.



Minhas opiniões:

Ainda que os estudos mostrem isso, é difícil crer que falar com a criança em outro idioma desde antes do nascimento possa ter grandes diferenças com o resultado que seria obtido caso o mesmo fosse feito apenas quando a criança completasse um ano.


Um fato é que as crianças gostam de rotina. A previsibilidade da rotina é algo que ajuda muito no desenvolvimento das crianças. Por isso, quanto mais cedo você implementar o sistema novo, menor será a resistência que você irá encontrar.


Para exemplificar: uso somente o inglês com a minha filha de 18 meses. Outro dia, por curiosidade, decidi chamar ela em português. Para minha surpresa, ela virou a cara pra mim, e ficou emburrada! rs Ela só veio até mim quando a chamei em inglês.

Isso apenas ilustra o que eu disse. É muito mais fácil introduzir um sistema desses enquanto a criança ainda é um bebê. Mas nada impede que esse sistema seja introduzido posteriormente. Em fóruns internacionais, já li relatos de pais que conseguiram introduzir o OPOL em crianças maiores de 8 anos! Obviamente, eles encontraram uma resistência enorme por parte das crianças. Mas com insistência e força de vontade, eles conseguiram.



Um outro ponto positivo de começar cedo é que você se acostuma com a ideia de usar um outro idioma com seu filho mais cedo. E tem um tempo maior pra desenferrujar. rsrs
Mesmo para pessoas que não pensam estar prontas para o 'desafio', começar quando a criança ainda é um bebê só traz benefícios. Um bebê requer um vocabulário muito pequeno, quando comparado a um toddler ou a uma criança maiorzinha. Então, você terá todo o tempo do crescimento dele para turbinar seu segundo idioma.


Agora, vamos a segunda, e mais complicada, questão:

Como começar?



Na verdade, para começar basta definir o sistema que sua família irá utilizar. E isso é o mais complicado.
Você pode ler o que eu já escrevi sobre os métodos aqui.


Para definir qual método utilizar, você precisa se fazer alguns questionamentos:

1. Qual o grau de imersão que eu quero dar ao meu filho em X (idioma 1)? E em Y (idioma 2)?


Responder a essa questão é fundamental para que a família defina qual método irá seguir. Uma família em um país onde o idioma falado não é o dos pais tende a escolher o ML@H (Minority Language At Home). Ao passo que um casal onde apenas um dos pais não fala a língua local tem maior tendência a optar pelo OPOL (One Parent, One Language).


Como esse blog tem como público-alvo pais não-nativos que desejam ensinar esse segundo idioma aos filhos, o questionamento toma outra forma. Transformar uma casa com pai e mãe brasileiros em um local onde apenas um outro idioma é falado pode ser uma tarefa complicada.
Casais cujo idioma nativo é o mesmo irão falar entre si nesse idioma. Mudar isso de uma hora pra outra pode ser uma tarefa impossível.



A saída mais comum é a utilização do OPOL, onde cada pai ensinará uma língua às crianças. Porém, outras derivações são bem-vindas. Os pais podem falar ambos no segundo idioma com a criança, e no idioma nativo entre si. Esta é uma derivação do ML@H.

Tudo isso dependerá do grau de imersão que os pais desejam aos filhos.

2. Você(s) está(ão) preparado(s) para deixar que outras pessoas ensinem o seu idioma nativo aos seus filhos?


Caso a resposta de um dos pais seja negativa, este preferirá ser o responsável pela transmissão do português. Caso os pais não se incomodem em deixar esta tarefa para outras pessoas, então o ML@H passa a ser uma opção.


Para ajudar, vou compartilhar como foi nossa escolha.
Eu queria para meus filhos uma imersão razoável no inglês, mas sem negligenciar o português. Sempre quis ser chamado de 'papai', não de 'daddy'. Então, um dos fatores que mais pesou na nossa escolha foi o peso que queríamos para cada idioma. Nós queríamos o português mais presente, pelo menos no começo. E como nossa filha passa o dia com a mãe, ela ficou responsável pelo ensino do português, e eu do inglês.
Hoje em dia, ela está com 18 meses e nós não percebemos nenhum grau de diferença na compreensão dela entre o inglês e o português. Mas, ela mesmo sabendo que eu sou o 'daddy' dela, ela me chama de 'papai'. =)


Responder a essas duas questões pode ajudar na definição do sistema a ser utilizado.


Sei que eu insisto bastante nessa tecla, mas lembre-se: não existe método perfeito. O que existe é o método perfeito para cada família.
É o caso, por exemplo, de uma mãe solteira. Ela pode usar o sistema ML@H, ensinando ao seu filho sua segunda língua e deixando a cargo de parentes e da escola ensinar o português. Ela poderia também criar um sistema próprio de línguas em sua casa. Alternando ela mesma entre os idiomas. Essa alternância pode ser por dia, por dia da semana, ou até por horário.
Neste caso, a fase na qual a criança irá misturar os idiomas pode ser um pouco maior do que a maioria. Mas mesmo assim, ela passará logo, e a criança será proficiente em ambas as línguas.


A dica então é: assim que você decidir qual abordagem tomará, e qual sistema irá seguir, com eventuais ajustes para que ele se adeque à sua família, já pode começar a colocá-lo em prática.
=)
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