terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Construindo vocabulário para crianças bilíngues

Quem lê, decora.
Quem vê, aprende.
Quem faz, não esquece.

Isso é verdade para línguas também. Chegar para alguém com uma lista de vocabulário sobre determinado assunto e pedir pra pessoa ler e aprender é uma tarefa estafante, pois dificilmente dará frutos. Usar flashcards é uma ideia melhor, pois facilita o estabelecimento do signo, uma vez que o significante e o significado são dados.

Existe, contudo, uma forma ainda melhor de ensinar e a mais indicada para crianças: experiências.

Uma criança só terá em seu vocabulário termos que ela use ou saiba utilizar. Isso é verdade para adultos também. Homens não costumam saber muitos termos de maquiagem enquanto que mulheres costumam penar para distinguir ferramentas. Isso tudo considerando uma pessoa monolíngue em relação ao seu idioma nativo.

Cada realidade possui seu conjunto próprio de termos. Para médicos: suturar, incisão, BPM etc. Para advogados: prevaricar, intimar, autuar etc. Para mecânicos: carburador, cárter etc. Comunicadores: signo, significante, receptor etc. Contadores: livro-caixa, balancete, soma-zero etc. Pais: mijão, body, coeiro etc.

Perceba que esses termos só costumam ser usados (e compreendidos) nessa realidade. Sendo assim, não são todos que são familiarizados com os mesmos.

Da mesma forma, uma criança bilíngue só terá em seu vocabulário termos que façam parte de sua realidade. Vamos pensar em uma criança bilíngue que nunca brincou com giz fora da escola monolíngue. Nesse caso, é seguro crer que essa criança não conhecerá a palavra ‘chalk’ (giz).

Nesse sentido, é importante proporcionar novas experiências para as crianças em uma criação bilíngue.

Uma boa sugestão é pintar (um quarto, uma parede ou um desenho) com a ajuda dos filhos. Aqui, eles poderão aprender termos como: tinta, pincel, parede, pintar, cores, molhado, seco, por cima (como em pintar por cima), balde, escada.

Nesse final de semana, nós decidimos brincar de arte com eles. Pintamos com cola e glitter, desenhamos com tinta e brincamos com giz.
Curiosamente, o termo que mais marcou a Yuna foi ‘Art’. Ela não conhecia o termo em nenhuma das línguas e ficou super feliz falando que ‘estaba pazendo arte’.

Outras dicas do que fazer com seus filhos bilíngues para aumentar a exposição a um idioma:

- Brincadeiras com objetos novos (baralho, dados, bexiga, blocos);

- Cozinhar (nomeando os utensílios e ingredientes e deixando a criança manuseá-los) – aqui a criança aprende o nome dos instrumentos, dos alimentos e dos procedimentos como ferver, cozer, fritar, assar, descascar, picar, moer, fatiar etc.;

- Organizar a casa (nomeando as partes da casa, os instrumentos usados e deixando a criança ajudar) - palavras que a criança pode aprender: sala, cozinha, banheiro, quarto, sofá, cama, tapete, vassoura, pá de lixo, aspirador, pano, balde, chão etc.

- Plantar uma árvore/horta – terra, semente, broto, regador, pá, cavar, sol, chuva, vida, crescer, grama, minhoca etc.;

- Ir ao zoológico/parque/aquário - para aprender o nome dos animais.

Basicamente, precisamos responder a seguinte questão: “existe algo com o qual meu filho nunca teve contato? Se sim, como posso dar a ele essa experiência?”.

Convido os leitores a deixarem novas sugestões de atividades para ampliar vocabulário.


Um grande abraço,













segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Bilíngue = Bicultural

O poeta Enio costumava dizer que tinha três almas, pois ele acreditava ter uma alma para cada língua que falava. No caso, Enio dominava o grego, o latim e o osco, sendo a última sua língua pátria.
Ele dizia que tinha três almas (ou três corações, em outra tradução), pois via o idioma como uma extensão da cultura de um povo.

Não posso afirmar sobre a quantidade de almas, mas sobre o outro ponto acredito que ele estava certo. Termos e expressões são usados em um contexto e esse contexto é a cultura. 

A cultura do povo molda a forma como ele constrói o idioma, bem como a forma como ele o usa. Por exemplo, por que os ingleses sentiram a necessidade de diferenciar fingers de toes e os portugueses chamam ambos de dedos? Por que algumas línguas possuem mais nomes de cores do que outras?

Nesse sentido, em diversas línguas não há distinção entre as cores azul e verde. Por exemplo, em alguns casos, o idioma japonês usa a palavra 青 [Ao] (azul) para se referir a coisas que nós chamamos de verde, como semáforos. Em coreano, a palavra 푸르다 (pureuda) significa as duas cores. O mesmo ocorre em tailandês e na língua vietnamita.
Alguns pesquisadores (B. Berlin e Paul Kay) afirmam que uma língua só desenvolve palavras específicas para designar as cores cinza, rosa, laranja, violeta e marrom depois de estabelecida a distinção entre verde e azul. [Basic Color Terms: Their Universality and Evolution – 1969]

Da mesma forma, a tribo indígena Pirahã possui uma forma muito diferente de enxergar o mundo, e, em especial, números. Por não possuírem o conceito de números, apenas ‘muito’ e ‘pouco’, eles raciocinam nesses termos. Isso deve ser consequência de sua forma de subsistência (caçadores-pescadores). Não lhes interessa se são 4 ou 5 peixes, uma vez que ambos os números são baixos para alimentar a aldeia, logo, ‘pouco’. No mesmo sentido, 4 ou 5 capivaras devem ser mais do que o suficiente para alimentar a aldeia, logo, ‘muito’.

A tribo australiana Guugu Yimithirr usa leste, este, norte e sul, ao invés de direita e esquerda. Por consequência, seu senso de direção é mais apurado do que o dos ocidentais acostumados em usar referências egocêntricas, como ‘à minha direita’ e ‘à minha esquerda’.

Depois de tantas curiosidades linguísticas, chego nos finalmentes.

Para pessoas bilíngues, essas diferenças alteram suas formas de pensar. Uma criança bilíngue português/coreano terá uma percepção de cores diferente de uma criança monolíngue em coreano. Por outro lado, ela perceberá a relação língua-cor de forma muito menos rígida. 
Para um monolíngue, o nome dado para a cor torna-se absoluto em sua mente, e vira referência para suas comparações. Ou seja, se não existe um nome diferente para verde e para azul, a pessoa perceberá as duas cores de forma mais próxima do que alguém que aprendeu um nome para cada uma das cores. 
Por outro lado, uma criança bilíngue terá maior facilidade em ver o significado desassociado do significante por conhecer dois signos possíveis para aquela situação.

Calma, acho que me empolguei rs.

O significado é a coisa no mundo real, por exemplo, uma cadeira, ou seja, o objeto no qual sentamos. O significante é a palavra ‘cadeira’ ou a palavra ‘chair’ e por aí vai. O signo é essa relação palavra-realidade. Nesse caso, temos a relação ‘objeto para sentar/palavra cadeira’ e a relação ‘objeto para sentar/palavra chair’. Ou seja, dois signos (relações) entre dois significantes diferentes (palavras) para um mesmo objeto (significado).
Para um monolíngue, um signo tende a ser absoluto. Enquanto que o bilíngue entende que existem mais de um signo possível para a mesma situação, e, por conta disso, sua mente trabalha com ambas as possibilidades.

Uma criança bilíngue não saberá apenas falar duas línguas. Ela enxergará o mundo através de dois pontos de vista diferentes. Ela será exposta a duas culturas. E cabe aos pais garantir à criança esse contato com ambas as culturas. Em posts futuros, tentarei dar dicas de como dar aos seus filhos contatos com uma cultura, ainda que longe de casa.

Um grande abraço,

Alguns pensam fora da caixa, outros enchem a caixa com água e brincam!

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Problemas com Pronúncias?

Pais de criança bilíngues precisam ter em mente duas coisas o tempo todo.
1. Seu filho é bilíngue.
2. Seu filho ainda tem (X) anos.

Pode parecer algo trivial, mas às vezes não é. Vou usar um exemplo para explicar as ponderações.

A Yuna está com 3 anos, e fala muito. E quando eu digo muito, é muito mesmo. Rs.

Quanto mais ela fala, mais conseguimos perceber alguns vícios de linguagem e alguns problemas de pronúncia. Ela costuma trocar o ‘f’ pelo ‘p’ e o ‘v’ pelo ‘b’. O resultado fica assim: “Eu tô peliz com bocê.” Ela costuma falar isso de vez em quando. Em outros casos, ela pergunta se estamos ‘pelizes’ com ela. Aqui, é uma forma de perguntar se ela está se comportando bem.

Eu, porém, percebi isso primeiro em inglês em frases como “ip Biam (William) hits me, I bill cry”. Por um momento, fiquei preocupado. Será que eu, como não-nativo, estava ensinando ela a falar errado? Será que ela não seria realmente bilíngue? Será que ela falaria errado pra sempre?

Esses questionamentos não duraram muito. Eu vi que isso estava acontecendo nas duas línguas. Eu me lembrei dos meus sobrinhos monolíngues. Um deles ficou um bom tempo falando “Ramos (vamos) pra casa” e “Carralo (cavalo)”. Hoje, ele fala muito bem.

Então, decidi ampliar meus conhecimentos e pesquisar sobre a evolução na pronuncia das vogais, consoantes e diferentes fonemas, em português e em inglês. O resultado foi o seguinte: existem alguns fonemas que são mais complexos, pois sua pronuncia requer movimentos mais finos. E, como em tudo mais, cada criança tem seu ritmo.

Para servir como guia para pais na mesma situação, segue uma breve lista:

Antes dos 4 anos, não se fala em “erro de pronuncia”.

Uma criança está dentro dos padrões se ela conseguir pronunciar bem as seguintes consoantes até os 4 anos: P, B, M, N (e W em inglês).

Até os 5 anos, ela deve conseguir usar as seguintes letras: m, p, b, g, t, d, n.
E, em inglês, acrescente: h, w, k, ng, y.

Apenas aos 6 anos, espera-se uma boa dicção das letras: f, v, ch.
Em inglês, ainda existem as combinações: th, sh, zh.

Por fim, apenas pode-se cogitar que algo esteja errado, caso a criança, depois dos 7 anos, não consiga pronunciar a lista acima, e diferenciar: s-z, r-rr.
E, em inglês, as terminações mudas th, ch, wh e o g curto.

As consoantes que estão fora dessa lista costumam não dar problemas e são aprendidas ainda cedo como d, c, l. Essas costumam aparecer na fase pré-verbal, onde o neném as repete infinitamente: da-dá, ca-cá, lá-lá-lá-lá-lá...

Essa comparação acima foi feita usando como base estudos de crianças monolíngues em português e em inglês. Isso significa que mesmo crianças americanas não terão uma pronuncia perfeita até os sete anos de idade.
Sendo assim, se o seu filho bilíngue ainda não tem a pronúncia perfeita e sem sotaque que os outros cobram de você, saiba que o motivo é a idade dele e não o bilinguismo. Se, por outro lado, ele está muito adiantado nessa lista, e consegue pronunciar o th e o f antes dos 5 anos, também não há razão para se preocupar (ou para taxa-lo de gênio – ainda que esse seja o instinto de todos os pais).

No final, a pronúncia e a dicção se desenvolvem na criança no tempo individual dela. Algumas crianças andam com 8 meses, outras com quase 2 anos. Algumas são desfraldadas com 1 ano, outras depois dos 5. E, da mesma forma, algumas crianças falam o v, f, th, ch com 2 anos e outras com 7.

O importante é respeitar o tempo do seu filho e não pressioná-lo. Nunca corrija os erros dele. Você pode, sim, mostrar a forma correta. Por exemplo:

“Olha, uma plor amarela!”

ERRADO: “Não, filho. Não é PLOR, o certo é FLOR.”
CERTO: “Isso mesmo, filho. Que FLOR linda!”

Perceba que o raciocínio é o mesmo do bilinguismo. Vamos ver em outra situação.

“Olha, mamãe, uma plower amarela.”

ERRADO 1: “Não, filho. FLOWER é em inglês. Comigo você precisa falar FLOR, em português.”
ERRADO 2: “Isso mesmo, filho. Que FLOWER linda!”

CERTO 1: “Isso mesmo, filho. Que FLOR linda!”
CERTO 2: “That’s right, my son. What a pretty FLOWER!”

Espero ter ajudado e aliviado algumas preocupações.

Um grande abraço,


quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Um tanto quanto "of-perente"

Existem palavras que só pais de crianças bilíngues conhecem.
Hoje, vou apresentar três pérolas que a Yuna soltou:

"Daddy, it's not come-outting."

"Mamãe, eu também quero smellar." (cheirar + smell)

Mas, a mais engraçada demorou para que nós compreendêssemos.

"Of perente"

Quebramos a cabeça tentando entender o que seria isso. Pelo contexto, vimos que ela queria dizer "different". Mas de onde havia surgido essa construção?! rsrs

Um dia, percebi que ela faz uma leve pausa ao falar diferente. Ela fala "di-perente".
Nós somos paulistas, então pronunciamos o 'e' como 'i' em muitas palavras.
Nós falamos "verdadi" no lugar de "verdade". "Telefoni" no lugar de "telefone".
E falamos "di" no lugar de "de".
Então, nós falamos "Eu ti amo di verdadi."

Aí entendemos! Ela achou que diferente era igual a "di ferente", ou seja, "de ferente", como se "ferente" fosse um adjetivo como "de verdade" ou "de mentira".
Ela então traduziu o "de" para "of", e manteve o resto da palavra intacta.

Devo dizer que o resultado ficou lindo, fofo e super "OF-PERENTE".

E vocês, já precisaram virar verdadeiros Sherlocks para desvendar a lógica usada pelos seus pequenos?


terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Blog

Inauguro esse espaço para passar um pouco o dia-a-dia de como está sendo essa nova aventura de criar filhos bilíngues. Basicamente, este espaço será destinado a pérolas, dicas, curiosidades e relatos pessoais.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Como escolher uma escola bilíngue?

O tema abordado não é simples. Apesar do título da postagem, o texto vai falar sobre como escolher uma escola, seja ela bilíngue ou não. Não pretendo esgotar o tema, e sim dar algumas linhas gerais.

Ao escolher uma escola, a família deve levar em conta alguns fatores:

1. Equipe: aqui, a verificação deve ir além de títulos e certificados, é interessante observar o comportamento da equipe com as crianças e o das crianças com a equipe. Crianças que nutrem carinho pelos professores são um ótimo indicativo.
2. Instalações: esse quesito diz respeito à segurança e ao conforto. Para crianças pequenas, verifique se as tomadas estão cobertas, se a escada é de fácil acesso, e se existem outros perigos para os pequenos. Para os maiores, salas de aulas e laboratórios são um bom local para começar. Aviso que os pequenos vão julgar a escola apenas pelo parquinho, enquanto os maiores o farão pela quadra de futebol.
3. Turmas: Verifique o número de alunos por turma. Isso é especialmente válido para crianças menores, pois um maior número de crianças significa menos atenção para seu filho e mais chance dele ficar constantemente doente.
4. Rotina: Verifique se a rotina da escola se adequa à sua (horários) e se você concorda com aquela rotina. Cuidado para não esgotar seu filho com uma rotina muito puxada.
5. Linha pedagógica: Crianças de 5 anos treinando para o vestibular ou intensivão bicho-grilo? Veja qual é a preocupação da escola em relação aos objetivos de ensino. Existem escolas mais focadas em preparar o aluno para o mercado de trabalho, enquanto outras o preparam para a vida. Idealmente, sugiro procurar uma que pense em ambos. (Lembrando que o que vale é a prática, pois o discurso costuma ser sempre parecido)
6. Custo: É importante que a escola caiba confortavelmente no orçamento familiar. Essa escolha, como todas que envolvem dinheiro, deve ser feita de forma responsável.
7. Localização: A localização da escola deve ser levada em conta, mas não acredito que deva ser o principal diferencial na hora de escolher.
8. Indicação/recomendação: Busque opiniões de quem já matriculou seus filhos nesta escola.

Mas como escolher a escola bilíngue para o seu filho?

Primeiro, vemos analisar as possibilidades:

1.       Escolas Bilíngues: Currículo dividido entre os idiomas. Ano letivo brasileiro.
Prós: dão à criança um bom panorama das duas culturas.
Contras: muitas escolas bilíngues possuem equipes fracas (cuidado com esse ponto).
Preço: $$$

2.       Escolas internacionais: Currículo similar ao do país de origem da escola. Ano letivo americano (início em agosto).
Prós: possuem boa infraestrutura e profissionais bem qualificados. Emitem diploma do país de origem (ou duplo).
Contras: Podem negligenciar a realidade brasileira (vestibular).
Preço: $$$$$

3.       Escolas tradicionais: Currículo brasileiro. Ano letivo brasileiro.
Prós: professores qualificados e boa infraestrutura. As melhores oferecem sistema High School (diploma duplo)
Contras: O inglês é objeto do ensino, não instrumento.
Preço: $ - $$$

4.       Escolas Onlines Internacionais: Currículo do país de origem. Ano letivo internacional.
Prós: professores qualificados. Diploma do país de origem.
Contras: Aulas apenas virtuais.
Preço: $$-$$$$

5.       Homeschooling: Prática não regulamentada no Brasil. Pode ser usada apenas de forma complementar.
Prós: o pai e/ou a mãe são os instrutores, isso reforça vínculos familiares.
Contras: Exige tempo e dedicação do aluno e dos pais.
Preço: Grátis - $
(Nota: apesar de não regulada, existem posições importantes defendendo esse direito. Por exemplo, a tese do Ministro do STJ. Disponível em http://bdjur.stj.jus.br/xmlui/bitstream/handle/2011/260/Aspectos_Constitucionais_e_Infraconstitucionais.pdf )

Aqui, vemos claramente um trade-off, uma troca. As escolas internacionais costumam ser grandes e com uma infraestrutura excelente, mas custam fortunas. Escolas bilíngues adicionam o inglês e cobram bastante por isso. Uma escola bilíngue com uma infraestrutura regular chega a cobrar R$ 1,5 mil por mês (idade – 4 anos). Pelo mesmo valor, os pais podem escolher praticamente qualquer escola tradicional.
Cabe aos pais ponderar o quanto de importância eles querem dar a cada idioma. Uma família que planeja mudar de país pode achar mais fácil escolher uma escola internacional. Uma família que pensa em permanecer no Brasil pode escolher uma escola tradicional.
Usar escolas online é uma boa opção para complementar os estudos da criança que cursa uma escola tradicional. O aluno faria meio período na escola tradicional e meio período cursando a escola virtual. Recomendo o site http://www.onlineschools.org para se informar sobre o assunto. Os custos variam de $ 2 a 12 mil dólares por ano (R$ 400 a 2 mil reais por mês).
Julgando esses fatores, aliados com os itens elencados acima, os pais podem chegar a uma decisão com uma certeza maior. Se a família não possui condições de colocar seus filhos em uma escola internacional, mas prezam mais pela infraestrutura e tradição do que para o segundo idioma, pode escolher com segurança uma escola tradicional. Se o aspecto linguístico é o principal a ser ponderado, talvez valha a pena visitar algumas escolas bilíngues.

Para ajudar os leitores, vou compartilhar nossa decisão.

Como criamos nossos filhos no sistema OPOL, eles já são bilíngues dentro de casa. Não fazemos questão de que seja a escola que os alfabetizem em inglês. Por conta disso, escolhemos uma escola tradicional com uma boa infraestrutura, relativamente próxima de nossa casa. Manteremos o inglês em casa, e iremos analisar a situação conforme eles forem crescendo.
Em nenhum dos estados que moramos (SP e DF), encontramos escolas bilíngues com boa infraestrutura (próximas de casa). No geral, são sobradinhos adaptados. Algumas (as mais caras) possuem uma área um pouco maior, mas ainda assim são pequenas para a quantidade de alunos.

Em relação à questão levantada (“Escolhendo a melhor escola bilíngue”), é importante:

1.       Ouvir a equipe usando o segundo idioma para ver o grau de proficiência na língua (certificados como TOEFL e Cambridge não substituem o olhar dos pais). Os pais poderão perceber se aquele profissional está confortável no idioma, isso é, se ele soa natural ao usá-lo.
2.       Tentar ouvir as crianças usando a segunda língua. Afinal, elas são a prova de sucesso ou insucesso da escola. O ideal seria andar pelos corredores da escola ouvindo diferentes crianças para evitar que a diretora, por coincidência, lhe apresente para a filha do cônsul americano. Obviamente, a ideia aqui não é inquerir os alunos (coisa que os incomodaria e que nenhum pai gostaria que fosse feita aos seus filhos na escola), e sim, ter uma abordagem de observador.
3.       Analisar a comunicação da escola. Escolas bilíngues costumam ter sites, folders, cartazes no idioma minoritário. Julgue-os para auferir a seriedade da escola. [Visitamos uma escola em São Paulo que tinha uma placa de Sleepy’s Room (quarto do Sleepy) ao invés de Sleeping Room (quarto de dormir)].
4.       Cuidado com mistura de línguas. Misturar duas línguas é uma técnica não indicada pelos linguistas. Infelizmente, muitas escolas fazem isso. Isso serve para dar aos pais a impressão de que a criança está ‘virando bilíngue’. Explico. Se todos os dias, a professora diz “é hora do snack” ou “quem quer um pouco de juice?”. Com o passar do tempo, a criança irá aprender essas duas palavras, e, dependendo da idade, irá usá-las com os adultos em casa. Porém, uma criança que fala “mãe, eu quero um juice” não é necessariamente bilíngue, ela pode conhecer apenas essa palavra em inglês da frase toda.

O acompanhamento deve seguir mesmo depois da escolha. Passados alguns meses, a criança, se não era bilíngue ao entrar na escola, já deve entender/falar algumas palavras. Cuidado para não tentar ‘exibir’ as novas habilidades linguísticas de seu filho, pois isso pode ter o efeito inverso. Ele pode ver o idioma minoritário como algo ‘diferente’, e crianças possuem uma vontade natural de pertencer/ser igual aos demais. Se a criança já era bilíngue, pouca ou nenhuma mudança deve ser observada em seu comportamento em casa. Lembrando que crianças bilíngues alternam entre os idiomas e que pode existir um idioma preferido de acordo com a idade e realidade da criança. Vou dar um exemplo: uma criança bilíngue que entre em uma escola onde apenas o inglês seja utilizado (pelos professores) ainda pode começar a falar mais o português pelo simples motivo de que as demais crianças da sala não eram bilíngues antes de entrar na escola, e, por isso, usam mais o português. Nesse caso, o desejo por pertencer e a convivência com os demais alunos podem levar a criança a usar mais o português.

Espero ter ajudado nessa hora tão difícil.

Um grande abraço!


terça-feira, 19 de agosto de 2014

Criar um filho bilíngue não é ensinar outra língua!

A afirmação do título pode parecer contraditória, mas permita-me explica-la.

Em diversas ocasiões, perguntaram-me como eu estava ‘ensinando’ inglês para meus filhos. Em muitos casos, a ideia de quem me perguntava isso era de que eu ensinava a ela da mesma forma que as escolas de inglês fazem: sentando-a em uma cadeira e começando a falar “em inglês, a cor vermelha se chama red. Red. Então, para falar maçã vermelha, falamos red apple”.

Essa é uma boa forma de ensinar um idioma, mas não funciona com crianças muito pequenas e não tem nada a ver com uma criação bilíngue.

Um filho bilíngue aprende as duas línguas da mesma forma. Isso significa que não se usa um idioma como instrumento para ensinar o outro. A criança está aprendendo a decifrar o mundo, e seu conhecimento ao nascer é [praticamente] o mesmo em qualquer língua (nulo).

Por isso, seu aprendizado da segunda língua deverá ocorrer de forma natural e interativa. A criança deve aprender experimentando, convivendo e interagindo com o idioma. Se a criança nunca viu um liquidificador, ela não lhe atribuiu nenhum nome ainda, em nenhuma língua. Ao ver um pela primeira vez, recebe a informação de que “that’s a blender”. Agora a criança já atribuiu um nome ao objeto (Blender).

Se uma semana depois, recebe a seguinte informação “isso é um liquidificador”, a criança vai entender que ‘liquidificador’ é outra forma de falar ‘blender’.

Em todos os idiomas que conheço, existem sinônimos. Palavras diferentes para significar a mesma coisa ou coisas muito parecidas. Temos diversos exemplos em português:

Montanha, morro, colina, monte. // Mar, oceano, pélago. // Carro, automóvel, veículo.

O mesmo ocorre em inglês:

Mountain, cliff, mount, hill. // Sea, ocean. // Car, automobile, vehicle.

Apesar de existirem leves diferenças entre o uso das palavras citadas, podemos considera-las como sinônimas. Ninguém deixará de ser compreendido se usar o termo oceano no lugar de mar. Diante disso, vemos que é natural às crianças (e aos adultos) atribuírem mais de um nome a um mesmo objeto.

Agora que já sabemos que não existe problema em saber dois nomes para o mesmo objeto, gostaria de fazer um alerta sobre a criação de uma criança bilíngue:

É normal que a criança bilíngue tenha um idioma dominante, que será aquele que ela falará mais. É normal, também, que o idioma dominante se altere com o tempo, ora um ora outro. É importante para os pais respeitar essa escolha, mas nunca abrir mão do idioma ‘secundário’. Em uma criação OPOL onde a mãe fica em casa, é normal que a criança desenvolva um vocabulário maior no idioma da mãe devido ao convívio. O pai, então, pode se deparar com situações onde a criança sabe a palavra apenas no idioma da mãe. Nessa situação, é importantíssimo que o pai não traduza para o idioma da mãe.

Vou dar um exemplo para explicar. Uma família OPOL onde o pai fala inglês e a mãe português (qualquer semelhança com a situação de quem vos escreve não é mera coincidência rs). Todos os dias, a mãe é a responsável pelo banho. Ela pede pra seu filho “entre na banheira, por favor”. O filho já sabe o que é a banheira.

Imaginem que a mãe peça para o pai dar o banho um dia, e ele prontamente o faz. Ele então pede ao filho “can you get in the bathtube, please?”. O filho não conhece a palavra bathtube, então o pai tem algumas possibilidades. Ele pode apontar e mostrar para o filho o que é bathtube (banheira). Ao ver seu pai apontando para a banheira, a criança irá entender que ambas as palavras se referem ao mesmo objeto.

Caso o pai tenha recebido outra tarefa, também relacionada à hora do banho, como comprar uma banheira maior. O pai, já na loja, fala para o filho que “we’re going to buy you a new and bigger bathtube”. Dependendo da idade, o filho vai perguntar para o pai “o que é isso?”. Crianças pequenas vão fazer uma cara de interrogação apenas. Nesses casos, o pai explica para o filho o que é uma bathtube. “It’s where we put water to clean you up. Mommy usually does it.”

Por que o pai não deve simplesmente falar “bathtube is a banheira”?

Dar a palavra em português, nesse caso, reforçaria a ideia de que o português é o idioma base, enquanto o inglês é o acessório. Ao se criar uma criança bilíngue, esse tipo de raciocínio deve ser evitado ao máximo. Uma língua não pode pesar mais do que a outra. Ambas devem ter o mesmo peso na vida da criança.
Ainda, em uma situação OPOL onde aquele pai que fala a língua minoritária entende a língua majoritária, ou em uma situação ML@H onde os pais entendem a língua majoritária, a criança pode deduzir que o esforço para utilizar a língua minoritária não compensa.

Algo do tipo: “Se eles também falam português, pra que eu vou me dedicar para falar inglês?”.

Mesmo com esse cuidado, isso pode acontecer. O importante é se manter irredutível. Mesmo que a criança se recuse a falar um idioma, ela ainda irá conviver com ele. Ela terá o que chamamos de fluência passiva. Transformar a fluência passiva (ouvir) em ativa (falar) é muito mais fácil do que ensinar a língua do zero. Então, mesmo que seu filho se recuse a falar o idioma, vale a pena insistir e “ensinar” a outra língua para ela. Acredite, o bilinguismo é um enorme presente que você dará para seus filhos!

Um grande abraço,



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